“Loving Vincent” e “Frida”

Aluna: Gabriella Araújo Tomé – 2A

Eu, com meus dezesseis anos, sempre fui admiradora de arte, em qualquer que seja sua forma, mas tenho maior apego pela arquitetura e pelas plásticas. Desde pequena gastava uma boa fração do meu tempo admirando os quadros da casa da minha avó, não porque os achava bonitos, na realidade aquelas frutinhas e as paisagens, sem querer desmerecer as obras,  eram bem monótonas e sem expressão. Não sou grande entendedora de arte e sei que não podemos dar uma definição exata para essa palavra, mas para mim, arte, é uma forma de expressão, é a tentativa de apresentar para o mundo o que se passa na mente, colocar sentimentos em palavras, telas, papeis, muros, palcos, fotos… e vários outros que poderia gastar um bocado de tempo listando, mas esse não é o objetivo deste texto!

Frida Khalo e Vincent Van Gogh são pessoas que admiro muito, tinham mentalidades bem diferenciadas do senso comum de sua época, eles questionavam imposições sociais pois simplesmente não compreendiam o porquê delas, mas não se moldavam aos padrões. Incompreendidos, usavam das pinturas para solidificar seus sentimentos e expressar aquilo que desejavam dizer ao mundo. Ambos são pintores modernistas, Van Gogh é o grande percursor desse movimento, já Frida está ao final deste período.

Loving Vincent

É uma animação do ano de 2017 muito diferente das de costume, já que o filme é “pintado a  mão” e conta com mais de 64 mil telas diferentes em sua composição, no traçado característico e inconfundível do pintor. A história do longa se passa alguns anos após a morte de Van Gogh, onde Armand Roulin (tema de uma de suas famosas pinturas, aliás) faz um favor ao seu pai (também uma famosa pintura) e tenta entregar uma carta de Vincent ao seu irmão Theo, porém, nesse meio, o rapaz se encontra com pessoas (também pinturas importantes) e descobre que Theo está morto. A partir deste momento o foco passa a ser saber o que levou aquele que cortara a própria orelha a se suicidar, levantando-se até mesmo a hipótese de homicídio. O conflito não é solucionado no fim do filme, que termina com frases da verdadeira última carta que esse pintor mandou ao irmão, sobre como se sentia incompreendido e deslocado, mas que gostaria de mostrar ao mundo, por meio do seu trabalho, aquilo que talvez ninguém guardava em seu coração.

Assisti a esse filme em dezembro do ano passado no cinema “Reserva Cultural”, no prédio da Faculdade Cásper Líbero, mas quando vi que a Netflix o liberou decidi revê-lo, e me peguei pausando em várias partes apenas para observar as pinturas. O filme, que foi indicado ao Oscar 2018, é sem dúvida uma obra de arte, que me fez conhecer muito mais do artista e me apegar a detalhes de sua personalidade que geram uma empatia tremenda por todo o sofrimento e sentimentos exacerbados que transbordaram esse grande artista. As telas acabam por contar a história junto com o roteiro. Seguramente posso afirmar que se tornou meu filme predileto.

Frida

O filme é um drama biográfico, com o roteiro baseado no livro Hayden Herrera. O vídeo conta sua vida da adolescência até o ano de sua morte, percorrendo cenas importantíssimas, tal qual o momento do trágico acidente com o ônibus, seu relacionamento com o pintor mexicano Diego Rivera, suas viagens pelo mundo, momentos boêmios e opiniões políticas, até a hospedagem de Trotsky em sua casa. É bastante artístico o filme, mas falado em inglês por motivo desconhecido, já que a pintora era mexicana e apresenta forte relação com essa nacionalidade. O filme é muito recomendado para os amantes da arte e aqueles que curtem boas histórias. Além de todas essas características técnicas, apresenta e detalha grande e maravilhosamente bem quem foi a incrível Frida Kahlo.

Quando assisti a esse filme estava em casa, não pensando em redigir um trabalho sobre ele, estava apenas na minha lista do Netflix. Não conhecia muito a história dessa mulher, meramente sabia sobre seu caso com um dos percursores da revolução russa, o filme é bem expositivo sobre os fatos e, assim como em Loving Vincent, não falha em expor os sofrimentos e descontentamentos da pintora com o mundo externo permeados em sua vida extremamente dura e complicada. A empatia também é trabalhada, tanto que foram numerosas cenas em que chorei.

Algumas reflexões para concluir

Julguei que seria interessante analisar os dois filmes em conjunto, não apenas por pertencerem ao mesmo movimento artístico, mas por serem duas pessoas geniais, porém incompreendidas.

Van Gogh, em vida, nunca vendeu sequer uma tela, faleceu em um quarto de hotel extremamente deprimido e infeliz. Em vida chegou a fazer coisas foras do normal, características de descompassos mentais, como comer tinta amarela por pensar que lhe faria feliz e cortar a própria orelha para presentear a uma prostituta. Frida Kahlo teve perdas duras por toda a vida, sofreu psicologicamente e fisicamente, passando por frustrações que iam de perder um namorado de adolescência, perder um filho e não poder ter outro até perder o controle de seus movimentos. Ela é hoje considerada um ícone feminista, tinha uma beleza fora do padrão e, considerando ser mulher e pintora mexicana, é incrível e admirável que tenha conseguido a posição no cenário internacional que chegou.

Trata-se de seres exuberantemente oprimidos e coagidos, apenas por pensar diferente. Ainda hoje é visível que nossa sociedade e o meio social em que estamos inseridos causa esse efeito nas pessoas, pois existe um senso comum, um padrão, que é complicado de se questionar, porque quando o fazemos somos julgados e até afastados. Talvez, a beleza de suas obras, as peculiares características sejam provenientes de tanto sofrimento. Se Frida e Vincent não tivessem passado por tudo que sentiram, hoje, talvez não houvesse pessoas capazes de encontrar nessas obras conhecimento intrapessoal. A tinta amarela “da felicidade” ingeria por Van Gogh é a mesma visualizada pelas pessoas nos seus quadros, nos de Frida, e de outros artistas na atualidade.