Reggae, uma história de luta

 

Aluno: Murilo La Fonte Albuquerque – 2C

Para este bimestre, fiquei por muito tempo indeciso sobre o que fazer para a VA Cultural.  Foi quando pensei em um estilo de música tão comum e ao mesmo tempo tão distante de nós: o reggae. Sempre que falamos desse estilo de música, só um artista vem-nos à cabeça: Bob Marley. Em um contexto geral, conhecemos bem pouco desse estilo. Por muito, ele sempre esteve presente em minha vida, já que minha prima sempre foi ouvinte deste estilo, porém nunca estive presente para apreciá-lo plenamente. 

 O reggae, basicamente, foi descendente de estilos denominados ska e rocksteady, que se originaram também na Jamaica anteriormente ao mesmo. Eles deram a base para, nos anos de 1960, quando várias transformações sociais começaram a ocorrer, surgir o estilo de Marley. A banda The Wailers, formada pelos principais representantes do reggae (Peter Tosh, Bunny Wailer e, obviamente, Bob Marley), popularizou o estilo dos rastafaris no mundo todo. Vários problemas internos fizeram com que seus principais membros a deixassem. Peter se separou dos The Wailers após a imposição da gravadora Island, gravadora da banda na época, do nome da banda se tornar Bob Marley & The Wailers. Se não bastasse, Bunny Wailer também se afastou da banda para praticar a fé dos rastafari. Contudo, a banda continuou sua jornada, com Bob Marley sendo o seu líder.

Assim como Bunny, vários outros cantores do estilo seguem a religião não oficial dos rastafari. Estes acreditam que os afrodescentes devem retornar as suas raízes, que para eles é sua terra prometida, isto é, a África. Acreditam nisso com base no Velho Testamento da Bíblia, dizendo que quando o primeiro imperador negro assumisse o poder na África, este seria a reencarnação de Messias na terra. Apesar disso, o rastafarianismo é mais considerado um estilo de vida por não possuir uma igreja ou forma de culto. O desejo de se separar dos costumes impostos pelos britânicos até 1962, quando conquistaram sua independência, influenciou em grande parte o desejo de expressar a voz que os artistas possuíam.

Bob Marley expressou-se bem nesse tempo. Enquanto vários protestos aconteciam em seu país no fim dos anos 60, ele pregava algo que era necessário neste momento: paz. No seu álbum Kaya, de onde saiu a consagrada música “Is This Love”, fala muito sobre paz, amor e descreve cenários naturais acompanhados por uma batida suave e calmante. Ele se tornou tão famoso enquanto artista que é impossível passar a vida inteira sem ouvir seu nome uma vez. Além de pregar a paz na Jamaica, apoiou o governo jamaicano quando este decidiu exercer embargos sobre a África do Sul para que esta abandonasse regime de Apartheid contra a população negra.

Peter Tosh, comparado à Bob, concentrava-se muito mais na luta contra injustiças do que na paz propriamente dita. No seu álbum Equal Rights, além de atacar seu antigo companheiro de banda dizendo “Eu não preciso de paz, eu preciso de direitos iguais” na música com mesmo nome, fica explícita a música mais crítica e combativa de Peter. As canções deste álbum retratam uma visão mais drástica sobre as diferenças entre as pessoas. Constantemente o músico se refere negativamente ao pensamento dos americanos sobre os negros e fala para estes “Se levantem, lutem por seus direitos”. Além disso, demonstra seu apoio na luta contra o Apartheid numa música com mesmo título. Além disso, constantemente faz referência à cultura rastafari, sendo também igualmente importante como os The Wailers na propagação dessa cultura. Realmente, um artista que deve ser reconhecido por seu talento e histórico de lutas por direitos iguais.

 Marcia Griffiths, apesar de não retratar com tanta profundidade os problemas da sociedade jamaicana como os outros dois, tem sua importância por ser a mais famosa cantora do estilo, sendo que recebeu o título de “Rainha do Reggae”. Também adepta do rastafarianismo, fala do desejo constante de viver livremente, naturalmente, assim como é dito no álbum “Naturally”. Suas músicas são bem animadas para o estilo, fazendo uso constante do piano e o uso progressivo das guitarras. A cantora sonha bastante com a África, como afirma na canção Dreamland, quando diz “Tem uma terra de que ouvi falar, muito longe através do mar(…) Te ter na minha sonhada terra, seria como o céu pra mim(…)”, além de sempre fazer canções sobre alguns sentimentos, como amor e saudade. Consagrou-se por ser influente no cenário musical para as mulheres, algo que não deve ser negado, além de possuir uma bela voz que é constantemente comparada à das grandes cantoras americanas.

O reggae não varia muito no estilo, sendo basicamente uma batida suave e lenta com bastante uso da guitarra e do baixo. Apesar disso, a variedade nos temos abordados pelos artistas é clara, mesmo que a maioria apenas queira demonstrar o sentimento de insatisfação daqueles que mais necessitam ser ouvidos. Por consequência, graças ao reggae, a luta pelo direito dos negros em vários países se tornou mais intensa, até em países como Brasil e África do Sul. A importância desse estilo como motor para as mudanças não deve ser ignorado, e seu valor cultural deve ser igualmente reconhecido pelas grandes massas.