Edgar Allan Poe

 

Aluna: Isabella Martins Gomes de Souza – 2D

Meu interesse por Edgar Allan Poe começou aos 13 anos de idade quando li uma história em quadrinhos de um de seus contos, “Assassinato na Rua Morgue”. Além dos desenhos, que prendem a atenção de qualquer criança, a atmosfera pesada e impactante ao redor do mistério e do crime investigado pelo detetive Dupin fizeram com que eu não parasse naquela história e fosse atrás de outras obras permeadas de terror e suspense desse marco da literatura de horror.

Antes de falar sobre algumas de suas obras, é importante destacar que os temas sombrios ecoaram também fora da literatura inglesa e alemã. Alguns escritores, dentre eles Charles Baudeleire, foram responsáveis por difundi-los não só círculos literários franceses, como também por toda a Europa.

O livro que escolhi para esta V.A Cultural foi “Edgar Allan Poe: coleção Medo Clássico”, o qual traz quinze contos mais seu poema mais famoso, “O Corvo”, que também aqui será tratado. Essa é uma edição de capa dura da Darkside, primeira editora brasileira totalmente dedicada ao terror e à fantasia, que contém, além dos contos e poema, um sumário que, permita-me dizer, me agrada muito, pois traz uma pequena introdução escrita por Charles Baudelaire (já citado anteriormente) e publicada em 1852 na Revue de Paris, chamada “O Homem e a Obra”.

Comecemos, então, por um de meus contos favoritos e que acredito encaixar-se em algumas características do Romantismo: “Eleonora”. Considerado uma poesia narrativa, “Eleonora” é narrado em primeira pessoa e nos conta a história desse narrador que se apaixona por sua prima (cujo nome deu origem ao do conto) e que, ao perceber que sua amada adoece, lhe faz a promessa de nunca mais amar ninguém. Mas, como estamos falando de Poe, é óbvio que existirá um conflito interno que atordoará o personagem: anos após a morte de sua doce Eleonora, ele decide ir morar na cidade grande, onde experimenta a vida boêmia e se apaixona por uma jovem. O que esperamos ansiosamente para saber é se ele amará outra pessoa e quebrará a promessa feita à Eleonora.

Contar logo o final do drama desse conto seria chato demais, então decido que agora é o momento de parar e falar sobre as características românticas presentes até o momento, trazendo pequenos trechos do próprio conto para melhor compreensão. Logo no início podemos perceber que o narrador é um romântico, um desajustado social que vive isolado (“Digamos, então, que sou louco”/ “Nenhum passo errante jamais penetrou nesse vale…”) e faz uma rápida introdução aos fatos que vai apresentar, caracterizando a história como composta por diferentes condições mentais (“…existem duas condições distintas de minha existência mental- a do raciocínio lúcido,incontestável, relativa à lembrança dos acontecimentos que formam a primeira época de minha vida, e a da sombra e da dúvida, correspondente ao meu presente…”).

Ele começa, então, a descrição da primeira parte de sua vida, aquela na qual ele estava lúcido, e descreve como começa o amor entre os dois. Nesta parte em questão, a natureza é participativa (“… como uma floresta de sonhos, brotavam árvores fantásticas cujos troncos… curvavam-se graciosos…/ “O gramado se tornou mais verde…”) e está sempre sendo associada à beleza de Eleonora (“…um rio…cujo brilho só não era maior do que o dos olhos de Eleonora…”).

Outra característica, presente principalmente na Geração Ultrarromântica, é o amor e morte como ideias centrais, inclusive sendo citado o deus Eros para falar sobre o sentimento entre os amantes (“… o deus Eros… acendera em nosso âmago as almas ardentes…”) e Tânatos, cujo nome não foi citado, porém, é a própria personificação da morte, assim como no trecho “… o dedo da Morte tocando-lhe o peito…”. Puxando o gancho para concluir o conto, acredito ter deixado uma grande pista para o desdobramento da história: a morte de Eleonora.

A partir desse acontecimento, a memória do narrador começa a ficar embaçada (“Até aqui, meu relato foi fidedigno. Porém, à medida que… prossigo rumo à segunda era de minha vida, sinto que uma sombra me obscurece a mente…”), mas a natureza continua a ser participativa (“As flores estreladas murcharam… e nunca mais floresceram. O verde do gramado desbotou…”).  O desajustado social decide, então, se mudar para a cidade na tentativa de superar a dor da perda e é neste ponto que fica evidente o sentimento do romântico em relação à sociedade, a qual ele não se encaixa, ao dizer “Vi-me em uma cidade estranha, onde todas as coisas serviam para apagar da memória os doces sonhos… Uma corte majestosa, …o som estridente das armas…inebriam meu cérebro.”).

É justamente na cidade que ele se apaixona por Ermengarde, uma jovem que é descrita de forma idealizada e, ao mesmo tempo, sensual, com desejos carnais, novamente nos trazendo uma característica romântica, percebida em “… adoração mais ardente e abjeta… ao fervor, ao delírio, ao êxtase…”/ “Ah, Ermengarde, anjo divinal!”).

Agora, o tão esperado final: será que Eleonora perdoará o amado por quebrar a promessa ou ela voltará para se vingar? Apesar de acreditar que a segunda opção traria um ar mais macabro, Poe optou pela primeira. Algum tempo depois, o narrador e Ermengarde  se casam e, no silêncio de uma noite, ele diz que escuta a voz da doce Eleonora, dizendo-lhe “…o Espírito do Amor reinou e…está absolvido…das promessas feitas à Eleonora.”.

Para finalizar, não poderia deixar de lado o grande poema “The Raven” ( “O Corvo”, traduzido para o português), publicado em 1845 na revista “Evening Mirror”, cerca de quatro anos antes de sua morte. Essa edição a qual me refiro reuniu a tradução de dois gênios da língua portuguesa: Machado de Assis e Fernando Pessoa, as quais, apesar de gostar muito, terei que deixar de lado e focar no poema original.

Minha escolha de foco principal se deu pela introdução (“A Filosofia da Composição”) escrita pelo próprio Edgar Allan Poe, na qual ele fala um pouco sobre o poema, sua forma, seu tamanho, o tema central etc. Além de afirmar que é importante que o poema não seja muito longo, pois ninguém se concentra verdadeiramente nestes, ele fala sobre o significado do poema.

Para contextualiar, “O Corvo” se passa numa noite, quando o eu lírico, um homem em luto pela morte da amada, está, muito cansado, em seu quarto e, de repente, um corvo entra em seus aposentos e sempre repete frases com finais “nevermore”.

Temos no poema um corvo, pássaro de mau agouro, repetindo monotonamente a palavra “nevermore”, sempre em tom melancólico. Então, Poe diz que se perguntou qual era o tema mais melancólico de todos e sua resposta foi:  a morte aliada à beleza (“Quando aliada à beleza, a morte de uma bela mulher é, indubitavelmente, o tema mais poético do mundo e, da mesma feita, não resta dúvida de que os lábios mais apropriados para avocar este tema sejam o do enamorado de luto por um amor.”). Novamente, as ideias centrais de amor e morte da segunda geração romântica permeiam os escritos de Poe.

Para finalizar, gostaria de compartilhar minha sincera opinião sobre este livro. Muitos dizem que Poe copiou isso ou aquilo de tal autor ou que ele foi “autêntico em vida e caricatura na morte”, mas nada disso me importa. Em minha opinião, esse livro foi um meio de entrar no mundo de Edgar Allan Poe, de ver o que ele via, sentir tudo aquilo que ele descrevia e, principalmente, foi como apertar sua mão e dizer “ É um prazer finalmente conhecê-lo”.

“Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjo chamam Lenora!”

 

“Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley

Aluna: Gabriella Andreucci – 1C 

Minha história com esse livro começou no final de 2016. Por indicação de uma booktuber (youtuber cujo canal é voltado para livros), decidi comprá-lo e sair da minha zona de conforto de livros “fáceis”; mas desde o dia em que o comprei nunca havia separado tempo para lê-lo. Foi quando, como um pedido enviado do além para que eu finalmente o lesse, a proposta desta VA Cultural veio e eu fui praticamente “obrigada” a realizar tal feito, uma vez que meus pais não tinham tempo de me levar para fazer algo que se encaixasse nas exigências da atividade.

Por incrível que pareça terminei de lê-lo em cinco dias, o que, na minha opinião, é um tempo ótimo levando em consideração que se trata de uma distopia clássica, ou seja; além de compreender um mundo totalmente novo aos meus olhos, tive que me acostumar com a linguagem mais rebuscada e “antiga” (de difícil entendimento em algumas partes, vale ressaltar). Eu simplesmente me sentei e comecei a ler, nada muito interessante já que não houve participação de outras pessoas, porém posso descrever, entretanto, como me senti durante a leitura, a qual posso afirmar que foi um tanto quanto estranha e maçante a princípio; conflitante e tensa a partir do momento em que realmente me envolvi com a história. Como dito, no início não gostei tanto assim da história, já que tive que realmente me esforçar para entender toda a lógica desse “novo mundo”, mas conforme fui me familiarizando com as referências e termos usados, me senti cada vez mais presa e aflita com todos os acontecimentos. Por possuir elementos tão facilmente relacionáveis com a sociedade contemporânea, me sentia de certa forma desconfortável ao ter tantas verdades jogadas sem pudor algum na minha cara e isso fez com que, durante dias após o termino da leitura, eu refletisse e pensasse sobre o enredo e como apesar de parecer uma simples distopia, teve um impacto tão grande no meu dia a dia.  

Admirável mundo novo, como citado anteriormente, é uma distopia clássica. Escrito em 1931 por Aldous Huxley, um autor inglês que compôs além de romances, diversos ensaios; foi também editor da revista Oxford Poetry. Ganhou diversos prêmios e teve algumas de suas obras adaptadas para a televisão, sendo duas delas adaptações de Admirável mundo novo.

Apesar de ter sido escrito há mais de 80 anos, se encaixa e, de certa forma, explica a sociedade de hoje em dia perfeitamente – esse foi definitivamente o aspecto que fez com que eu gostasse tanto do livro. Na sociedade descrita, a manipulação é um fenômeno onipresente, a ponto de os indivíduos serem “criados/fabricados” em laboratórios. Eles eram divididos em castas, e dentro delas, teriam habilidades específicas, sem possibilidade nenhuma de mudanças. As crianças, por exemplo, assim como na sociedade atual (em sua maioria), são ensinadas e induzidas a gostar e não gostar de determinadas coisas, a ter mais habilidade em certas áreas do que outras, o que claramente se relaciona com a forte divisão de gêneros atualmente. Além disso, há um grande incentivo ao consumismo, até porque essa sociedade tem que se manter economicamente: ao invés de tentar consertar algo quebrado, simplesmente compram outro novo. Novamente, esse elemento reflete-se na nossa sociedade em que o consumismo é cada vez maior entre as pessoas e o fato de consumir mais do que o necessário se tornar algo normal, uma rotina. Para ser bem sincera, poderia escrever páginas e páginas de como esse livro se relaciona com a nossa sociedade, mas espero ter dito o bastante para que você se interessasse.

O fato é que já tinha perdido as esperanças de que algum dia realmente o leria, mas graças à atividade tive a oportunidade de me deparar com uma história carregada de críticas sociais e que se encaixa perfeitamente nos dias de hoje; portanto recomendo fortemente a leitura e reflexão de um mundo que apesar de ser novo é tão podre e manipulador como o velho.

 

“O Estrangeiro”, de Albert Camus

 

Aluno: José Henrique Granjo Matos – 2C 

Albert Camusfoi um jornalista, filósofo e escritor francês, que deu início ao movimento absurdista e é considerado um dos grandes nomes do Existencialismo. Ele nasceu no ano de 1913 em Mondovi, à época, colônia francesa. Em 1914, seu pai, enquanto servia no exército francês, foi morto na batalha do Marne. Por isso, sua mãe mudou-se para a casa da avó materna de Camus, em Argel.

Ele viveria sua infância em um bairro operário, pobre e convivendo com seu irmão, vó mãe e tio. Pode-se dizer que a janela da oportunidade se abriu para Camus quando um professor, ao perceber o potencial do francês, insistiu para que a família o matriculasse no ensino secundário. Ele acabou por formar-se na Universidade da Argélia. Camus nunca foi capaz de lecionar, pois em 1930, enquanto estava na universidade, contraiu tuberculose, com seu estado de saúde se deteriorando muito rápido, essa foi a primeira vez que o autor viria a se deparar com a possibilidade da morte.

Em 1934 filiou-se ao Partido Comunista Francês e, entre 1937 e 1940, escreveu para dois jornais socialistas. Em 1940 foi rejeitado no exército devido a sua saúde ainda perturbada por casos de tuberculose, dois anos depois publicou “O Estrangeiro”. Foi em decorrência da fama deste livro que Camus viria a entrar em contato com o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre, com quem manteria uma amizade até 1952. Também, por este, foi introduzido a Resistência Francesa, o movimento antinazista, assim passou a publicar um jornal clandestino chamado Combat.

Sua interpretação do existencialismo, da qual falarei mais posteriormente, o levaria ao individualismo e a negação do socialismo, motivo pelo qual romperia sua amizade com Sartre (um defensor ferrenho do socialismo soviético). Em 1957, foi agraciado com o Premio Nobel de Literatura. Três anos depois, morreu em um acidente de carro, fato que, ironicamente, o autor escrevera anteriormente, que esta seria a forma mais absurda de morrer-se.

Como eu conheci o livro?

Vim a entrar em contato com a obra de Camus da melhor forma possível, ao total acaso. Acabei por encontrar seu livro, O Homem Revoltado, ao lado de Diários de Viagem e O Estrangeiro. Como eu achei uma edição muito bonita, resolvi ler a sinopse dos três livros, acabei interessando-me mais n’O Estrangeiro, pois este nome me soava familiar. Assim sendo, agora falarei um pouco sobre o livro e a filosofia contida no mesmo.

O Estrangeiro

Hoje, Mamãe morreu. Ou talvez foi ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não explica nada.

Assim começa o primeiro capítulo da obra e, já aqui, vê-se uma síntese perfeita do protagonista. Primeiramente, assim que recebe a notícia da morte de sua mãe, Mersault apresenta uma reação extremante pragmática, ele não se preocupa com seus sentimentos, ou com a dor da perda, mas, com a irritação provocada pela dúvida contida no telegrama. Assim, pouco a pouco compreendemos que o protagonista é um niilista.

Niilismo é uma corrente filosófica que nega qualquer sentido inerente à vida, pregando, assim, uma aceitação do vazio, posto que nada do que fazemos tem uma consequência maior e todas as relações humanas são desprovidas de significados. Essas características estão presentes em vários momentos da narrativa, desde quando o vizinho de Mersault pede ajuda para que ele consiga agredir uma amante, até o instante em que este assassina um mulçumano na praia de Algers. No entanto, essa profunda indiferença é muito bem explicitada em um diálogo entre ele e sua namorada:

Maria veio buscar-me à noite e perguntou-me se eu queria casar com ela. Respondi que tanto me fazia, mas que se ela de facto queria casar, estava bem. Quis então saber se eu gostava dela. Respondi, como aliás respondera já uma vez, que isso nada queria dizer, mas que julgava não a amar. “Nesse caso, por que casar comigo? ”, disse ela. Respondi que isso não tinha importância e que, se ela quisesse, nós podíamos casar

 

Uma vez caracterizado Mersault, o protagonista, vamos entender a sequência de eventos da narrativa.

Logo após receber o telegrama, Mersault conversa com seu chefe, o qual aparenta estar bravo por este ter de se ausentar do trabalho para ir ao enterro da mãe. Ao chegar à cidade onde se localizava o asilo (pois este homem não colocara a mãe próximo a ele), tem uma breve conversa com o diretor da casa de repouso. Ao ser questionado sobre o porquê de colocar a mãe idosa naquele local, o protagonista simplesmente responde que ela estava entediada na casa dele e os dois pouco conversavam. Mais uma vez, o pragmatismo é latente, ele toma suas decisões pensando não em seus sentimentos e muito menos no que é certo. Suas atitudes estão além do bem e do mal. Durante o enterro, ele conhece um idoso que aparentemente estava “namorando” sua mãe no asilo. Ele não entende porquê.

Nos capítulos seguintes, o protagonista recebe um pedido de ajuda de seu vizinho para armar uma cilada para sua amante. Ele o ajuda e, como resultado, após agredirem a mulher, um conhecido dela passa a perseguir os dois. Essa constante perseguição a Mersault o leva, eventualmente, a assassinar este homem (um mulçumano) com quatro tiros. Tudo isso é narrado nas primeiras 64 páginas com a mesma frieza com a qual eu aqui conto essa mesma história.

Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte onde as balas se enterravam sem se dar por isso.

A segunda parte do livro se inicia com os preparativos para o julgamento de Mersault. Não convém muito descrever os pormenores de cada capítulo, basta entender-se que pouco a pouco, os acusadores (e até mesmo o próprio juiz) não se atinham a discutir o crime cometido por Mersault, mas sim a criticar sua personalidade (inclusive o fato dele se considerar ateu) como um todo, chamando como testemunha o próprio diretor do asilo onde morrera sua mãe. Caracterizado por todos como um monstro, Mersault é condenado a morte.

Pode-se dizer que O Estrangeiro, como história, acaba neste momento. As últimas páginas do livro se preocupam apenas em expressar as ideias que passam pela cabeça de Mersault conforme ele aguarda o dia de sua execução. Aqui, finalmente Camus explicita sua filosofia na forma de um grande monólogo.

Ao se ver preso por quase um ano, Mersault finalmente começa a se preocupar com questões mais subjetivas: ele se pergunta o porquê de sua mãe ter se apaixonado tão idosa e sabendo que iria morrer. Ao fazer isso, ele chega à conclusão de que justamente porque sabia que logo iria morrer logo, ela resolveu tentar manter um relacionamento. Assim, ele conclui que a humanidade ruma para o absurdo, e o universo como um todo, mostra-se completamente indiferente a tudo isso. Pela primeira vez em todo o livro, o protagonista parece abandonar o vazio, não o negando, mas o aceitando e entendendo que, uma vez que não há um sentido inerente à vida, todos somos livres e, ironicamente, dentro da prisão Mersault finalmente tem a sensação de verdadeira liberdade:

Como se esta grande cólera me tivesse limpado do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por o sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda a era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio.