Elza Soares – “Deus é Mulher”

Aluna: Vitória Torres Nunes – 2A

Era uma vez Elza Soares, que lá em 2015, lançou aquela deliciosa mistura que foi a essência do álbum Mulher do Fim do Mundo. Quem olhasse a sua capa feia, dicromática e sem graça, e só nela ficasse, uau, estaria perdendo uma grande obra-prima, cheia de análises culturais e históricas. Não sendo somente isso, nem rock, nem samba, nem psicodélico, nem rap e nem eletrônica, Mulher do Fim do Mundo se caracterizou como o povo brasileiro é: aquilo que tem de tudo. Não foi à toa que a obra de Elza ganhou o Grammy Latino, a honra de melhor música do ano (com Maria da Vila Matilde) segundo a Rolling Stones Brasil e ainda foi indicada a diversas outras grandes premiações.

Com o tamanho sucesso, já era de se esperar que Elza adotasse de vez esse estilo de música em seu próximo álbum. Contudo, apesar de pertencer ao mesmo corpo de crítica que Mulher do Fim do Mundo, Deus é Mulher se mostra apenas como um braço, um apêndice apontado para uma só direção: feminismo, como o próprio nome já indica.

Para falar a verdade, pareceu-me mais que o álbum era apenas sobre uma mulher revoltada, que se cansou de tudo e que agora não está nem aí para nada, nem para o que pensam dela e nem para o que ela pensa. Não foi sobre a tal da sororidade e essa foi a novidade, o charminho, o perfume que fica depois que se abraça.

A seguir, uma breve análise de algumas músicas das quais gostei bastante:

Canção “O que se cala”

Elza também retoma o tema miscigenação com os versos “Mil nações/ Moldaram minha cara”, mas o foco é o fato de que o povo de seu país denigre justamente aquilo que lhe permite a voz, o lugar de fala. Sua incredulidade é mais que esclarecida nos diversos questionamentos que faz acerca do comportamento estúpido de muitos brasileiros: “Pra que explorar?/Pra que destruir?/Por que obrigar?/Por que coagir?/Pra que abusar?/Pra que iludir?/E violentar/Pra nos oprimir?/Pra que sujar o chão da própria sala?”

Canção “Banho”

Essa é a minha favorita e é um daqueles famigerados casos em que o compositor só juntou umas palavras que combinavam e que, quando cantadas numa boa entonação e voz, ganham de fato algum sentido. No geral, o tom rude (notável pelos palavrões) e ironicamente seco de Elza mostra o quão de saco cheia da vida ela está e o quanto ela não se importa com os outros, pois agora o que importa é o que ela pensa. Apesar da letra maravilhosamente doida, esse sentido que dei é explícito nos versos “Eu não obedeço porque sou molhada” e “Minha lagoa engolindo a sua boca/Eu vou pingar em quem até já me cuspiu, viu”.

Canção “Língua Solta”

Se o despudor da língua não foi completamente efetivado na canção “Eu quero comer você”, a sua indiferença a qualquer agrado de educação se mostra nessa música: “Mas eu digo sim, que sim pro que eu quiser/Sexo, pêlo, prego e futebol/Puta, presidente e cardeal”.

Canção “Um Olho Aberto”

Eu sinceramente amei o descaso dos versos “Ora, cara, não me venha com esse papo sobre a natureza” e “Cada um inventa a natureza que melhor lhe caia”. Resposta digna para quando não se quer ouvir as sandices tal da Teoria Queer nas aulas de atualidades e para rebater os naturalistas. No geral, é um ótimo meio de encerrar assunto.

Canção “Clareza”

Para mim, essa deveria ser a primeira música do álbum, como um prólogo. Afinal, trata de quando o princípio de dúvida se instala e do fruto do pensar daí gerado: a clareza. Esse álbum, portanto, anuncia então um despertar para a independência, como já demonstra os versos: “Vem na tardinha se mostrar/De repente anunciar/A ilusão que se perdeu”. A ilusão, creio, é de que a mulher não é capaz.

Enfim, o tom feminista está justamente nessa ousadia de “estou pouco me lixando para tudo e todos”. Foi como se essa figura de saco cheio mostrasse o quanto as mulheres estão cansadas de opressão e regras, e agora só querem fazer o que bem entenderem. Muito mais inovador e legal do que o já tornado clichê da sororidade (tema que envolve auto-aceitação e união, saturados de mais do mesmo), não é mesmo?

No todo, o álbum é rude, grosso, despudorado. É mesmo um braço que parte de um corpo de críticas para dar um murro no seu nariz e ainda esperar você se levantar só para cuspir na sua cara depois. Mas tudo bem, pois só leva porrada os desatentos à atualidade e destes apenas sofrem aqueles que não aceitarem o curativo que é a mensagem da canção “Deus há de ser”, que fecha o álbum, e fecha aferida, mas tem a gentileza (finalmente uma!) de deixar a marca e o susto.