“O Estrangeiro”, de Albert Camus

 

Aluno: José Henrique Granjo Matos – 2C 

Albert Camusfoi um jornalista, filósofo e escritor francês, que deu início ao movimento absurdista e é considerado um dos grandes nomes do Existencialismo. Ele nasceu no ano de 1913 em Mondovi, à época, colônia francesa. Em 1914, seu pai, enquanto servia no exército francês, foi morto na batalha do Marne. Por isso, sua mãe mudou-se para a casa da avó materna de Camus, em Argel.

Ele viveria sua infância em um bairro operário, pobre e convivendo com seu irmão, vó mãe e tio. Pode-se dizer que a janela da oportunidade se abriu para Camus quando um professor, ao perceber o potencial do francês, insistiu para que a família o matriculasse no ensino secundário. Ele acabou por formar-se na Universidade da Argélia. Camus nunca foi capaz de lecionar, pois em 1930, enquanto estava na universidade, contraiu tuberculose, com seu estado de saúde se deteriorando muito rápido, essa foi a primeira vez que o autor viria a se deparar com a possibilidade da morte.

Em 1934 filiou-se ao Partido Comunista Francês e, entre 1937 e 1940, escreveu para dois jornais socialistas. Em 1940 foi rejeitado no exército devido a sua saúde ainda perturbada por casos de tuberculose, dois anos depois publicou “O Estrangeiro”. Foi em decorrência da fama deste livro que Camus viria a entrar em contato com o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre, com quem manteria uma amizade até 1952. Também, por este, foi introduzido a Resistência Francesa, o movimento antinazista, assim passou a publicar um jornal clandestino chamado Combat.

Sua interpretação do existencialismo, da qual falarei mais posteriormente, o levaria ao individualismo e a negação do socialismo, motivo pelo qual romperia sua amizade com Sartre (um defensor ferrenho do socialismo soviético). Em 1957, foi agraciado com o Premio Nobel de Literatura. Três anos depois, morreu em um acidente de carro, fato que, ironicamente, o autor escrevera anteriormente, que esta seria a forma mais absurda de morrer-se.

Como eu conheci o livro?

Vim a entrar em contato com a obra de Camus da melhor forma possível, ao total acaso. Acabei por encontrar seu livro, O Homem Revoltado, ao lado de Diários de Viagem e O Estrangeiro. Como eu achei uma edição muito bonita, resolvi ler a sinopse dos três livros, acabei interessando-me mais n’O Estrangeiro, pois este nome me soava familiar. Assim sendo, agora falarei um pouco sobre o livro e a filosofia contida no mesmo.

O Estrangeiro

Hoje, Mamãe morreu. Ou talvez foi ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não explica nada.

Assim começa o primeiro capítulo da obra e, já aqui, vê-se uma síntese perfeita do protagonista. Primeiramente, assim que recebe a notícia da morte de sua mãe, Mersault apresenta uma reação extremante pragmática, ele não se preocupa com seus sentimentos, ou com a dor da perda, mas, com a irritação provocada pela dúvida contida no telegrama. Assim, pouco a pouco compreendemos que o protagonista é um niilista.

Niilismo é uma corrente filosófica que nega qualquer sentido inerente à vida, pregando, assim, uma aceitação do vazio, posto que nada do que fazemos tem uma consequência maior e todas as relações humanas são desprovidas de significados. Essas características estão presentes em vários momentos da narrativa, desde quando o vizinho de Mersault pede ajuda para que ele consiga agredir uma amante, até o instante em que este assassina um mulçumano na praia de Algers. No entanto, essa profunda indiferença é muito bem explicitada em um diálogo entre ele e sua namorada:

Maria veio buscar-me à noite e perguntou-me se eu queria casar com ela. Respondi que tanto me fazia, mas que se ela de facto queria casar, estava bem. Quis então saber se eu gostava dela. Respondi, como aliás respondera já uma vez, que isso nada queria dizer, mas que julgava não a amar. “Nesse caso, por que casar comigo? ”, disse ela. Respondi que isso não tinha importância e que, se ela quisesse, nós podíamos casar

 

Uma vez caracterizado Mersault, o protagonista, vamos entender a sequência de eventos da narrativa.

Logo após receber o telegrama, Mersault conversa com seu chefe, o qual aparenta estar bravo por este ter de se ausentar do trabalho para ir ao enterro da mãe. Ao chegar à cidade onde se localizava o asilo (pois este homem não colocara a mãe próximo a ele), tem uma breve conversa com o diretor da casa de repouso. Ao ser questionado sobre o porquê de colocar a mãe idosa naquele local, o protagonista simplesmente responde que ela estava entediada na casa dele e os dois pouco conversavam. Mais uma vez, o pragmatismo é latente, ele toma suas decisões pensando não em seus sentimentos e muito menos no que é certo. Suas atitudes estão além do bem e do mal. Durante o enterro, ele conhece um idoso que aparentemente estava “namorando” sua mãe no asilo. Ele não entende porquê.

Nos capítulos seguintes, o protagonista recebe um pedido de ajuda de seu vizinho para armar uma cilada para sua amante. Ele o ajuda e, como resultado, após agredirem a mulher, um conhecido dela passa a perseguir os dois. Essa constante perseguição a Mersault o leva, eventualmente, a assassinar este homem (um mulçumano) com quatro tiros. Tudo isso é narrado nas primeiras 64 páginas com a mesma frieza com a qual eu aqui conto essa mesma história.

Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte onde as balas se enterravam sem se dar por isso.

A segunda parte do livro se inicia com os preparativos para o julgamento de Mersault. Não convém muito descrever os pormenores de cada capítulo, basta entender-se que pouco a pouco, os acusadores (e até mesmo o próprio juiz) não se atinham a discutir o crime cometido por Mersault, mas sim a criticar sua personalidade (inclusive o fato dele se considerar ateu) como um todo, chamando como testemunha o próprio diretor do asilo onde morrera sua mãe. Caracterizado por todos como um monstro, Mersault é condenado a morte.

Pode-se dizer que O Estrangeiro, como história, acaba neste momento. As últimas páginas do livro se preocupam apenas em expressar as ideias que passam pela cabeça de Mersault conforme ele aguarda o dia de sua execução. Aqui, finalmente Camus explicita sua filosofia na forma de um grande monólogo.

Ao se ver preso por quase um ano, Mersault finalmente começa a se preocupar com questões mais subjetivas: ele se pergunta o porquê de sua mãe ter se apaixonado tão idosa e sabendo que iria morrer. Ao fazer isso, ele chega à conclusão de que justamente porque sabia que logo iria morrer logo, ela resolveu tentar manter um relacionamento. Assim, ele conclui que a humanidade ruma para o absurdo, e o universo como um todo, mostra-se completamente indiferente a tudo isso. Pela primeira vez em todo o livro, o protagonista parece abandonar o vazio, não o negando, mas o aceitando e entendendo que, uma vez que não há um sentido inerente à vida, todos somos livres e, ironicamente, dentro da prisão Mersault finalmente tem a sensação de verdadeira liberdade:

Como se esta grande cólera me tivesse limpado do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por o sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda a era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio.