Lady Bird: a hora de voar

Aluna: Thaís Midori (1E)

Quando foram anunciados os indicados ao Oscar, Lady Bird foi um dos filmes que, ao ler a sinopse me chamou a atenção, mas que não me despertou tanto interesse assim, a ponto de eu tirar um tempo da minha semana corrida para ver. Acabei deixando de lado essa opção pra ver filmes que julguei serem mais interessantes como Me Chame Pelo Seu Nome.

Porém, quando tive um tempo livre, decidi dar uma segunda chance ao filme, que me surpreendeu muito e que me deixou muito tocada com a verossimilhança da obra com a vida, já que pude me identificar inúmeras vezes com a personagem principal.

A protagonista do filme é Christine “Lady Bird” McPherson, uma jovem que se encontra no último ano do colégio e que quer estudar longe de sua cidade, Sacramento, na Califórnia, mas que não obtém o apoio de sua mãe nessa decisão, já que a mesma, tenta ser realista com a filha, o que desencadeia inúmeras discussões o tempo todo, ao longo do filme. Ela, como possui uma personalidade forte, não desiste facilmente, e continua com a ideia na cabeça. No decorrer do filme, mostra-se o amadurecimento da personagem, que passa coisas comuns entre a adolescência e a vida adulta, como o namoro, sexo e amizade.

Decidi ver o filme, de repente, pois já havia me decidido que iria vê-lo algum dia, então, numa tarde qualquer, procurei o filme na internet, já que não estava cogitando ir ao cinema para assistir, pois minhas expectativas para o filme não estavam muito altas, mesmo que uma amiga tivesse me recomendado, porque gostara muito do filme. Talvez, por não estar esperando muito, acabei me surpreendendo, me emocionando e me identificando em muitos momentos com a Lady Bird, que mesmo não tendo a mesma idade que eu, passa por uma fase de amadurecimento, e sobretudo quer alçar voo e ser livre para seguir seus sonhos (por isso Lady Bird, nome que foi dado e ela por ela própria).

Passei a tarde inteira assistindo ao filme, pois muitas vezes o pausava para refletir como Lady Bird se assemelhava a mim, não só por conta da personalidade, mas também por conta de ela estar amadurecendo durante o filme, assim como eu estou. Ela se assemelha a mim ao criar expectativas que são praticamente irreais; ao brigar com os pais (no caso dela, com a mãe) que só querem evitar frustrações por conta dessas expectativas, evitando um “choque de realidade”; o fato de ela se sentir péssima por não entender matemática, mas se esforçar para melhorar; o fato de ela se apaixonar facilmente e as desilusões amorosas que ocorrem por conta dessas paixões. Enfim era quase como se eu me enxergasse nela, como se estivesse fazendo parte do filme, não apenas como telespectadora, mas sim como se eu fosse parte da Lady Bird ou como se ela fosse parte de mim – uma catarse!

Algo que me emocionou muito durante o filme foi a construção da relação entre mãe e filha, que estão em constantes brigas e é quase uma relação de amor e ódio, mas não se pode negar o amor existente entre as duas. A cena em questão que mais me emocionou, foi em uma situação em que ambas, estão em uma loja e acabam entrando em mais uma briga, até que a filha pergunta e mãe se gosta dela. A mãe responde que quer que a filha seja a melhor versão dela mesma.

Meia-noite em Paris, de Woody Allen

Aluna: Yasmin Barbosa (2B)

Ao analisar a lista de filmes divulgada pelo professor, o título “Meia-noite em Paris” soou de certa forma familiar a mim. Não sabia exatamente o porquê, mas minha atenção foi despertada. Inicialmente, pensei que o motivo seria o fato de que tal título, em minha perspectiva, remete a algo de caráter romântico, com o qual me envolvo mais facilmente. Entretanto, ao pesquisar a respeito do filme e ver seu trailer, me dei conta de que no ano passado meu professor de arte havia mostrado um trecho da obra. Devido à rotina corrida, apesar do interesse, acabei me esquecendo e não assisti ao filme.

Nesta nova oportunidade, sentindo-me em débito comigo mesma, resolvi dedicar um tempo para refletir e fazer algo que eu realmente goste. Nesse aspecto, ver que essa obra estava na lista de indicações do professor “caiu como uma luva”. Não se trata de um filme que comumente eu iria assistir, até porque não costumo gostar de obras que remetem ao passado, porém a abordagem deixou-me curiosa – há a menção a diversos artistas consagrados em uma espécie de aventura que o protagonista vive.

O filme conta a história de Gil Pender (Owen Wilson), que vai para Paris a passeio com sua noiva Inez (Rachel McAdams), aproveitando-se de uma viagem de negócios de seu sogro que, a propósito, nunca aprovou o relacionamento. Lá a mulher encontra um velho amigo de faculdade pelo qual era interessada e ele, juntamente com sua esposa, guia o casal por pontos turísticos. Durante todo o tempo, esse amigo demonstrava de maneira arrogante os seus conhecimentos sobre as obras e os locais que visitavam e Inez não consegue esconder seu interesse por ele.

A partir desse momento fica evidente que, apesar de estarem às vésperas do casamento, Gil e sua futura esposa são muito diferentes: ele, um roteirista de Hollywood, não gosta dos trabalhos artificiais que produz e está escrevendo um romance, cuja inspiração para tal parece florescer em Paris, cidade onde seus ídolos viviam nos anos 20; ela, como se estivesse cega de admiração por seu “amigo”, não compreende a paixão do marido e o repreende sempre que este demonstra vontade de morar no local.

Certo dia, Gil decide caminhar sozinho pelas ruas da cidade e, momentos depois de se sentar para descansar na frente de uma Igreja, um carro antigo para em sua frente e os passageiros insistem para que ele entre. Ele chega à festa e se dá conta de que está na presença de seus ídolos da literatura francesa dos anos 20 – Scott, Zelda Fitzgerald e, principalmente, Hemingway, seu maior ídolo, para quem pede que leia seu romance.

No dia seguinte, Gil está perplexo diante de toda a situação e não sabe se a experiência realmente aconteceu. Vai para o mesmo local no mesmo horário e tudo se repete – inclusive ele se apaixona por uma namorada de Picasso. Na “vida real”, descobre que está sendo traído por sua noiva e eles cancelam o casamento.

A história me trouxe ansiedade em diversos momentos, principalmente quando Inez aparece no momento em que ele está saindo do hotel com um presente em mãos para entregar para a mulher por que está apaixonado e, tentando disfarçar, inventa uma desculpa. Por outro lado, me fez ranger os dentes em cada um dos momentos em que aparecia o homem pelo qual Inez “era” apaixonada, tendo em vista seu egocentrismo e prepotência.

Assisti à obra sozinha, em minha cama, no notebook. Simplesmente eu e o filme. Gostei tanto que foi como se eu estivesse na pele do protagonista. Por um lado, há a necessidade de mascarar tudo o que ele viu, já que sua noiva vai simplesmente pensar que ele está louco (como de fato pensa) e, por outro, os sentimentos são tão intensos que dá vontade de gritar para o mundo.

Me identifiquei com o fato de que, na maior parte das vezes, no mundo globalizado atual, produzimos coisas que não refletem realmente a nossa essência, não fazemos as coisas para viver e sim para sobreviver. Há uma necessidade de ceder, pelo menos por um momento, aos verdadeiros desejos e paixões, como faz Gil ao andar por Paris.

Woody Allen, diretor do filme em questão, costuma sempre representar mulheres marcantes, inteligentes, complexas, como a dama do passado pela qual Gil se apaixona. Ele tenta sempre criar referências culturais em suas obras, no caso, os vários artistas mencionados e suas vidas e na maioria dos casos coloca um ritmo de jazz ao fundo nos seus créditos. Apesar disso, em “Meia-noite em Paris”, não é necessário ter um grande repertório para compreender a trama.

Recordando as minhas aulas de literatura, percebi uma característica dos poetas românticos muito marcante no protagonista, apesar dos artistas mencionados e toda a trama não pertencer a tal escola literária (Romantismo). O escapismo é algo evidente em Gil, que procura fugir da sua realidade marcada pela produção de roteiros que não refletem o que ele realmente busca – o que o público hollywoodiano procura em uma produção cinematográfica não faz parte da essência deste homem e do que ele considera importante, por isso ele se diverte tanto fugindo dessa vida. Além de sua futura esposa não ter olhos para ele e seu trabalho não trazer emoções, o “amigo” de Inez faz com que ele passe por constrangimentos a todo momento.

O diretor, Woody Allen, com atores do filme.

Memorial da Resistência

Aluno: Uriel Tiago Picinato de Assis – 2D

Para o 3° bimestre de 2018, irei relatar como foi minha experiencia ao visitar, no dia 29 de julho, o Memorial da Resistência. Realizei esse passeio com a minha irmã e com minha mãe, optamos por utilizar o transporte público, ônibus e trem, para chegar até a estação da Luz, um lugar marcado pela representação da decadência da vida humana. Ficamos entusiasmados em visitar esse museu para conhecer um pouco mais sobre um passado dolorido, causado pela ditadura militar vivenciada no século passado.

A ditadura militar no Brasil iniciou-se com um golpe de Estado no governo de João Goulart, acusado de comunista. Instaurou-se um governo militar, o qual foi responsável por enfraquecer o Estado de direito e minimizar a intuições democráticas do país. Durante o governo militar, a liberdade de expressão foi o direito mais fragilizado, fato explicitado, pela criação do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo – Deops/SP, órgão responsável pelo controle e repressão dos cidadãos, considerados rebeldes, pois organizavam movimentações politicas populares contrários ao governo vigente. Atualmente, o edifício utilizado como sede desse departamento é ocupado pelo Memorial da Resistência, o qual manteve os documentos e representações de sofrimento dos antigos presos políticos em sua exposição, fazendo com que o passado não seja esquecido.

Ao visitar o museu, podemos conhecer o ambiente em que muitas vítimas da ditadura sofreram com a repressão, através de perseguições, torturas e até com a morte. Logo que entramos no museu, deparamo-nos com um ambiente que mostrava todas as instituições de repressão espalhadas pelo país. Junto as fotos desses locais, havia textos informativos, os quais explicavam qual era função de cada instituição e em alguns casos, os mais bárbaros crimes cometidos contra a vida humana. Além disso, o Memorial, reconstruiu, em suas instalações, três celas idênticas às utilizadas pelos presos do Deops . Nessas celas, o que seguramente mais impressiona são os nomes e frases gravados em sus paredes: cada palavra e nome lidos nesse ambiente remetem ao quão dolorido e sofrido era passar dias torturantes dentro daqueles pequenos e sufocantes espaços. Encontramos também no museu algumas salas com documentos e relatos audiovisuais. 

A repressão, cometeu diversos atentados contra a vida humana. Considero extremamente injusto ao menos não comentar as cenas que vi no pequeno trajeto da estação da Luz até o edifício do Memorial. Ainda dentro da estação de trem, encontramos diversas mulheres, meninas e travestis, em uma situação degradante, causada pelo crack, que estavam vendendo seu corpo em troca de uma pequena quantidade de dinheiro que, provavelmente, seria utilizada para comprar mais drogas. Além disso, as ruas ao entorno do museu são marcadas por pessoas desfiguradas que ficam perambulando sem rumo algum, as quais evidenciam a negligência a vida desses humanos, que não possuem, no mínimo, seus direitos mais básicos, o que lhes tornam, verdadeiros abandonados. Ao vivenciar essas cenas, passei um longo tempo me perguntando onde estavam os direitos sociais daquelas pessoas e, também, por qual  motivo uma pessoa se submete a tal situação, de verdadeira decadência da vida humana.

Fazer esse passeio foi algo muito bom, pois me permitiu conhecer um pouco melhor a verdadeira história da ditadura militar e como esse período foi extremamente prejudicial para o povo de nosso país. Porém, o que tornou esse passeio extremamente gratificante foi a reflexão que ele me permitiu sobre a valorização da vida humana. Depois desse dia, percebi o real valor das coisas mais simples de nossa vida, como a nossa liberdade que, infelizmente, esteve ausente na vida daqueles presos políticos devido à oposição que realizavam ao governo vigente e, também, está ausente na vida daquelas pessoas que estão presas ao vício do crack, fato que os colocaram, ainda mais, à margem da sociedade e tornou as suas vidas verdadeiras representações, da degeneração humana.

 

“Carinhoso” (Pixinguinha)

Alunos:  Sarah Eilen Carvalho da Silva (2E), Guilherme Ziroldo (2A), Piero Gomide (2C), Gabriel Ziroldo (1A) e Felipe Suzuki (2E).
Autora do texto: Sarah Eilen Carvalho da Silva (2E). 

Herdeira da segunda geração da bossa nova e das raízes folclóricas, a Música Popular Brasileira, ou a MPB, surge essencialmente na década de 1960, porém suas influências musicais datam desde muito antes. Em virtude da fusão de tão variadas culturas desde o período colonial brasileiro, esse estilo musical baseou-se nas tradições europeias, africanas e indígenas. No final do século XIX, seguindo a batida rítmica do lundu africano, a melancolia das modinhas portuguesas e os passos da dança de salão européia, o choro ou chorinho foi criado. Alicerçada com as raízes do choro, a bossa nova foi fundamental para que a Música Popular Moderna – como anteriormente fora conhecida a MPB – fosse criada, uma vez que a harmonia melódica e sofisticação da Bossa Nova expressam-se de forma notável nas músicas desse gênero em questão.

Alastrada por meio do Festival de Música Popular Brasileira, um concurso anual de canções originais que teve seu ultimato em 1969, a MPM tornou-se popular por entre estudantes e intelectuais, ficando conhecida como “a música da universidade” e colaborando para a alteração do nome para Música Popular Brasileira, como é conhecida atualmente. Perdendo parcialmente seu sentido preliminar graças a muitas influências culturais, se tornou difícil caracterizá-la, problema que estende-se até a contemporaneidade. Apesar de suas perdas, esse estilo acabou fazendo parte do perfil dos estudantes, a música passou a representar os jovens pensadores no final da década de 60 e início da década de 70, transparecendo nas canções seus desejos radicais e insubmissíveis. Recobrando seu inicial perfil nacionalista, esse gênero musical contribuiu para com os movimentos contra a ditadura militar instaurada no país no ano de 1964. O simbolismo revolucionário da música não passa despercebido durante a repressão cultural, interferindo no modo que o povo via a situação do próprio país por meio das músicas e de muitos conteúdos censurados neste período de pura doutrinação militar.

O fato mais interessante é que, fundamentados em um ambiente hostil e estéril resultante da censura, os cantores e compositores conseguem firmar raízes e fazer crescer o plantio que anteriormente não crescia com tanta persistência quanto crescia naquela época de ditadura. Muitas vezes, novos estilos musicais são criados em ambientes hostilizados e repressores e o resultado é extraordinário. Não somente estilos musicais se encaixam nesse sentido, mas também a literatura, a pintura, a arte como um todo. Todos os 21 anos, sofridos anos, de ditadura contribuíram para que a ascensão da Música Popular Brasileira fosse copiosa.

Colocando a história da Música Popular Brasileira em perspectiva, vemos a importância que trouxe à sociedade brasileira. Dentre os artistas que fizeram e fazem parte dessa trajetória musical temos uma lista demasiadamente grande contendo os nomes de soberbos artistas como Edu Lobo, Vinícius de Moraes, Elis Regina e Milton Nascimento. Contendo outras vertentes, esse estilo musical abrange atualmente estilos como o rock, soul e o funk, acompanhado de cantores e compositores como Gilberto Gil, Tim Maia e Gal Costa. Entretanto, devo chamar atenção para um dos pioneiros da MPB: o queridíssimo Pixinguinha.

Alfredo da Rocha Vianna Filho, conhecido como Pixinguinha, viria a ser um dos mais renomados cantores, músicos e compositores de todos os tempos. Nasceu dia 23 de abril de 1897, no Rio de Janeiro, e logo aos seus onze anos começou a sua estrada pelo mundo da música tocando cavaquinho e, sem demora, o pai notou seu talento. O menino não tarda a aprender flauta e, posteriormente, saxofone, desencadeando na profissão de Pixinguinha como músico no Teatro Rio Branco. Acompanhando o aprendizado musical de Alfredo, suas composições também tornam-se destaque, cuja primeira a ser publicada em 1914 chamava-se “Dominante”, um tango de sua autoria.

Formou-se, em 1919, um grupo chamado Oito Batutas, no qual Pixinguinha – como flautista – e seu irmão, China – vocal e violão – , faziam parte. A banda destacou-se pelo Brasil e afora, obtendo grande prestígio até que em meados da década de 1931 o grupo acabou por se dissolver definitivamente.

Pixinguinha, ao seus 20 anos, lança um choro instrumental chamado Carinhoso, sendo terrivelmente injustiçado em razão de não ter sido bem aceito pela crítica no seu lançamento. As críticas fundamentavam-se na fixa ideia de que, naquela época, os choros tinham três partes obrigatoriamente, enquanto Carinhoso obtinha somente duas, além de ela ter uma sonoridade mais puxada para o jazz americano, o que deixou os críticos muito insatisfeitos. Quando o tenor, cujo acervo musical possui mais de 60 obras, morreu em 17 de fevereiro de 1973, encerrou-se, assim, uma vida de incríveis 75 anos de pura música.

Motivados com a abertura do sarau do 3º ano do Ensino Médio de 2018 sobre o Festival de Música Brasileira, resolvemos apresentar a reprodução de Carinhoso do Pixinguinha, buscando as raízes da Música Popular Brasileira.

Nosso grupo de músicos encontrou-se para que pudéssemos tocar Carinhoso, composta por Pixinguinha e letrada por João de Barro, no dia 2 de setembro de 2018. Concordamos alguns dias antes que a música seria, mais especificamente, a versão da Marisa Monte com Paulinho da Viola, para que todos estivessem familiarizados com ela e, chegando o dia da gravação, todos já sabiam seus papéis e suas partes. Ficou estipulado que o Guilherme Ziroldo (2ºA) ficaria no teclado e cantaria, o Piero Gomide (2ºC) ficaria no baixo, o Gabriel Ziroldo (1ºA) na bateria, o Felipe Suzuki (2ºE) na guitarra e, finalmente, eu no vocal. Novamente digo que não é fácil ser vocalista, uma vez que qualquer erro pode arruinar a música. Felizmente, desta vez cantando Carinhoso, a pressão foi menor do que com o que aconteceu com Frank Sinatra. Mesmo sendo músicas cujas vozes são fortes e empoderadas, todas são únicas e cada uma tem seus pontos positivos e negativos para quem as escuta. A meu ver, a voz da Marisa Monte não tem muitos pontos negativos, o que deixa a música mais desafiadora, porém sua voz não se compara com o barítono Frank Sinatra quanto ao nível de desafio, pelo menos para mim. Após a gravação da música, passamos a tocar as músicas que mais gostamos – rock, obviamente – e o dia se encerrou com nosso grupo de músicos mais que contentes por termos gravado sem nenhum erro (notável).

Mosteiro dos Jerônimos (Portugal)

Aluna: Gabriela Santo Azzolini – 1F 

Nas férias de julho deste ano, eu e meus pais viajamos ao nosso tão sonhado destino, Portugal. Lá, tive a oportunidade de aprender muito sobre a cultura europeia  e sobre as ligações do local à história brasileira. Ainda, pude ter contato com pessoas dos mais diversos lugares do mundo, conhecer cidades, desde as que preservam suas heranças medievais (como Óbidos) até as mais urbanas e contemporâneas, além de experimentar novos sabores de uma rica gastronomia. Foram muitos os lugares que visitei, mas, sem dúvidas, um dos mais interessantes foi o Mosteiro dos Jerônimos, situado em Lisboa.

Este é um mosteiro do estilo manuelino (do Renascimento em Portugal) localizado na praia do Restelo, no bairro de Belém, construído durante o reinado de D. Manuel I, no século XVI, com vista às expedições que dali partiriam em 1497, com Vasco da Gama para as Índias, e em 1500, com Pedro Álvares Cabral para o Brasil, de forma que os navegadores receberiam assistência espiritual antes da viagem. Na época, a entrada do mosteiro era extremamente próxima ao rio Tejo, exatamente com o objetivo de dar bênçãos aos navegadores dos Descobrimentos, antes das viagens. Hoje, já, a parte da frente deste é mais distante deste rio, o qual teve uma parte aterrada neste trecho séculos mais tarde da construção.

Minha visita ocorreu durante a manhã do dia 2 de julho. Apenas observando a fachada do mosteiro, já havia me encantado. Era muito grandioso, apresentava um belo jardim à sua frente, e então a praia, e tinha muitos detalhes. Ao entrar, a primeira coisa que fiz foi olhar pra o teto e para as grandes colunas existentes. Ele era absolutamente gigantesco e riquíssimo em detalhes, os quais fui percebendo com o passar do tempo e relacionando com a história portuguesa da época que fora construído. Logo na entrada, há dois túmulos; o que se localiza à direita é uma sepultura vazia de Luís de Camões, o maior poeta e “pai” da língua portuguesa; e o da esquerda é de Vasco da Gama, um dos principais “descobridores”. A igreja deste mosteiro apresenta uma planta em cruz (tradicional à época), composta por três naves: uma maior na vertical, que se refere ao corpo e maior parte do monumento, onde está a capela-mor, a qual é de estilo maneirista (movimento nas artes entre o Renascimento e o Barroco); e duas menores horizontais onde se encontram sepulturas e cenas da Paixão de Cristo. Ainda, nas paredes, há grandes e coloridos vitrais.

O que mais me chamou atenção foi o teto, os detalhes existentes nas colunas e as esculturas presentes nas portas espalhas pela igreja do mosteiro. O teto é constituído por uma extensa abóbada polinervada (não lisa) suportada por seis pilares, sendo surpreendente por sua grandiosidade. As colunas são altas e cobertas por diversos ícones, principalmente por esferas, umas com uma cruz no centro, representando a cruz de cristo, e outras com diversas linhas em volta que mostrariam a união dos locais do mundo.  Além disso, as portas apresentavam seus batentes esculpidos com diversas cabeças de índios e reis, representando a descoberta e o domínio de novos territórios, como do Novo Mundo, pelos portugueses.

Mesmo a visita tendo sido a um mosteiro, neste analisei, principalmente, as referências históricas, e não tanto seu caráter religioso momentâneo. Acredito, realmente, que ele seja um ponto que quem for a Lisboa não pode deixar de conhecer, devido aos seus valores e à experiência incrível que propicia. Ele é um marco histórico da época das Grandes Navegações, apresentando a busca do homem por novos conhecimentos, unido à religiosidade do momento.

Por fim, logo que sai do Mosteiro dos Jerônimos, segui para a conhecida confeitaria dos Pastéis de Belém, próxima dali. Pude saborear, então, este maravilhoso doce da culinária portuguesa , dando fim a meu passeio.

Nas imagens acima: entrada do mosteiro, túmulo de Camões e detalhe das abóbadas. 

Slam das Minas

Aluna: Jade Cardoso Raimundo – 2E

Slam Resistência é um evento que acontece toda primeira segunda feira do mês na Praça Roosevelt, no centro de São Paulo. O objetivo do encontro é apreciar poesias autorais dos candidatos que disputam entre si, sendo julgados por jurados da plateia escolhidos pelos organizadores. Tal iniciativa promove a ascensão de vozes que não são ouvidas normalmente e permite que as pessoas tenham a oportunidade de se expressar através da fala e gestos corporais.

 Eu conheci o Slam Resistência através de uma amiga, a qual me enviou vídeos de participantes recitando. Ao ver o conteúdo, me intriguei com a proposta e resolvi pesquisar mais sobre o evento, pelo qual me apaixonei completamente. Já faz aproximadamente um ano que eu acompanho os vídeos no canal Sociedade Dos Poetas Subversivos e pelo facebook Slam Resistência. Foi por esse meio, que eu me inteirei sobre a poetisa Mel Duarte, a qual admiro muito e que me levou a conhecer o Slam das Minas, organização que possui o mesmo objetivo que o original, entretanto, só as mulheres podem recitar.

 O Slam das Minas ocorre em diversos locais do Brasil. A batalha à qual eu fui aconteceu no jardim do Museu da Imigração, que está localizado no Brás. Para chegar até o local, peguei o trem e metrô com três amigas e andei uns 10 minutos até alcançar o lugar. Ao entrar no Museu, me deparei com um belo jardim e uma fonte com estátuas venustas. O clima que o lugar propusera era extremamente aconchegante. Após algum tempo, as poetisas chegaram para iniciar o show e eu fui escolhida para ser uma das juradas. O embate de palavras começou e, conforme as poesias eram recitadas, mais eu me encantava com a magia dos discursos e da dialética utilizada brilhantemente pelas autoras. Os temas eram variados, mas os mais recorrentes eram relacionados ao feminismo e a crítica da sociedade preconceituosa. A artista que mais me chamou atenção foi a baiana Fabiana D’Alcântara, a qual recitou as poesias de forma inspiradora e possuía um conteúdo abrangente e conveniente.

É importante ressaltar a relevância de organizações como essa, que dão visibilidade as pessoas e chances dessas exporem seus pensamentos e opiniões. Além disso, o Slam possibilita a discussão de assuntos contemporâneos pertinentes, os quais deveriam ser debatidos em outros lugares como, por exemplo, nas escolas. Na minha visão, seria necessário que o ambiente escolar dispusesse tempo para que questões que afetam nossa realidade fossem analisadas. Dessa forma, os estudantes teriam o senso crítico e o ativismo apurados.

O Slam e a poesia me influenciam de tal forma que resolvi escrever um texto baseado em experiências que eu tenho no cotidiano na linguagem de batalha. Espero que goste.

 

Às 18 horas

São 18 horas
A lua se revela no céu
Negro como meus devaneios
Encoberto pelas nuvens
As quais se assemelham a um véu
Translúcido, ainda pode-se ver seu interior
Mesmo que tente esconder
É visível seu esplendor 

Luzes artificiais são acesas
Disputando com a celeste apagada
Sobressaem-se com clareza
E dão vida e beleza
A uma paisagem já consumida pela tristeza

Pelo ônibus ponho-me a observar os semblantes
E que vistas agonizantes!
Cansaço e estresse encubados na expressão
Daqueles que esperam o sinal verde
Postos a depressão 

Diante disso, surge uma indagação
Será que eu estarei no lugar deles daqui alguns anos?
“O vazio sem esperança”
Reflete a mediocridade instalada no sistema
American Way Of Life é uma constante lembrança
Alienação de uma sociedade que não enxerga o problema 

Será que serei assim?
Abdicarei os meus sonhos para viver
Viver não, sobreviver
E contribuir para uma instituição que não tem percepção
A qual dispõe a visão de números,
Porém não possui compaixão
Milhares estão sendo mortos
A cada minuto mais um
Enquanto tu lias essa poesia
Uma bala reluz
Não acertando o dono,
Mas sim aquele que produz 

Sistema hipócrita
Promete oportunidade
Meritocracia é o que dizem acreditar
Entretanto, sucumbem a realidade
Falam que todos estão no mesmo patamar

O sinal abriu
Os carros partiram
A reflexão sumiu
E ainda são 18 horas

Elza Soares – “Deus é Mulher”

Aluna: Vitória Torres Nunes – 2A

Era uma vez Elza Soares, que lá em 2015, lançou aquela deliciosa mistura que foi a essência do álbum Mulher do Fim do Mundo. Quem olhasse a sua capa feia, dicromática e sem graça, e só nela ficasse, uau, estaria perdendo uma grande obra-prima, cheia de análises culturais e históricas. Não sendo somente isso, nem rock, nem samba, nem psicodélico, nem rap e nem eletrônica, Mulher do Fim do Mundo se caracterizou como o povo brasileiro é: aquilo que tem de tudo. Não foi à toa que a obra de Elza ganhou o Grammy Latino, a honra de melhor música do ano (com Maria da Vila Matilde) segundo a Rolling Stones Brasil e ainda foi indicada a diversas outras grandes premiações.

Com o tamanho sucesso, já era de se esperar que Elza adotasse de vez esse estilo de música em seu próximo álbum. Contudo, apesar de pertencer ao mesmo corpo de crítica que Mulher do Fim do Mundo, Deus é Mulher se mostra apenas como um braço, um apêndice apontado para uma só direção: feminismo, como o próprio nome já indica.

Para falar a verdade, pareceu-me mais que o álbum era apenas sobre uma mulher revoltada, que se cansou de tudo e que agora não está nem aí para nada, nem para o que pensam dela e nem para o que ela pensa. Não foi sobre a tal da sororidade e essa foi a novidade, o charminho, o perfume que fica depois que se abraça.

A seguir, uma breve análise de algumas músicas das quais gostei bastante:

Canção “O que se cala”

Elza também retoma o tema miscigenação com os versos “Mil nações/ Moldaram minha cara”, mas o foco é o fato de que o povo de seu país denigre justamente aquilo que lhe permite a voz, o lugar de fala. Sua incredulidade é mais que esclarecida nos diversos questionamentos que faz acerca do comportamento estúpido de muitos brasileiros: “Pra que explorar?/Pra que destruir?/Por que obrigar?/Por que coagir?/Pra que abusar?/Pra que iludir?/E violentar/Pra nos oprimir?/Pra que sujar o chão da própria sala?”

Canção “Banho”

Essa é a minha favorita e é um daqueles famigerados casos em que o compositor só juntou umas palavras que combinavam e que, quando cantadas numa boa entonação e voz, ganham de fato algum sentido. No geral, o tom rude (notável pelos palavrões) e ironicamente seco de Elza mostra o quão de saco cheia da vida ela está e o quanto ela não se importa com os outros, pois agora o que importa é o que ela pensa. Apesar da letra maravilhosamente doida, esse sentido que dei é explícito nos versos “Eu não obedeço porque sou molhada” e “Minha lagoa engolindo a sua boca/Eu vou pingar em quem até já me cuspiu, viu”.

Canção “Língua Solta”

Se o despudor da língua não foi completamente efetivado na canção “Eu quero comer você”, a sua indiferença a qualquer agrado de educação se mostra nessa música: “Mas eu digo sim, que sim pro que eu quiser/Sexo, pêlo, prego e futebol/Puta, presidente e cardeal”.

Canção “Um Olho Aberto”

Eu sinceramente amei o descaso dos versos “Ora, cara, não me venha com esse papo sobre a natureza” e “Cada um inventa a natureza que melhor lhe caia”. Resposta digna para quando não se quer ouvir as sandices tal da Teoria Queer nas aulas de atualidades e para rebater os naturalistas. No geral, é um ótimo meio de encerrar assunto.

Canção “Clareza”

Para mim, essa deveria ser a primeira música do álbum, como um prólogo. Afinal, trata de quando o princípio de dúvida se instala e do fruto do pensar daí gerado: a clareza. Esse álbum, portanto, anuncia então um despertar para a independência, como já demonstra os versos: “Vem na tardinha se mostrar/De repente anunciar/A ilusão que se perdeu”. A ilusão, creio, é de que a mulher não é capaz.

Enfim, o tom feminista está justamente nessa ousadia de “estou pouco me lixando para tudo e todos”. Foi como se essa figura de saco cheio mostrasse o quanto as mulheres estão cansadas de opressão e regras, e agora só querem fazer o que bem entenderem. Muito mais inovador e legal do que o já tornado clichê da sororidade (tema que envolve auto-aceitação e união, saturados de mais do mesmo), não é mesmo?

No todo, o álbum é rude, grosso, despudorado. É mesmo um braço que parte de um corpo de críticas para dar um murro no seu nariz e ainda esperar você se levantar só para cuspir na sua cara depois. Mas tudo bem, pois só leva porrada os desatentos à atualidade e destes apenas sofrem aqueles que não aceitarem o curativo que é a mensagem da canção “Deus há de ser”, que fecha o álbum, e fecha aferida, mas tem a gentileza (finalmente uma!) de deixar a marca e o susto.

Pinacoteca de São Paulo

Aluna: Thaís Monique Melchior Baena – 2E 

Eventualmente, vou a alguns lugares do centro de São Paulo, porém, mesmo assim, minha mãe e eu nunca havíamos visitado a Pinacoteca. É um museu que sempre tive vontade de conhecer, mas nunca havia tido a oportunidade. Portanto, para a atividade cultural deste bimestre , optei por conhecê-lo. Fiquei muito impressionada com a grandiosidade do museu, tanto externamente como por dentro. É enorme e muito bonito! Não sabíamos que a Pinacoteca reunia vários acervos de diversos artistas. A visita torna-se mais rica ainda, já que se tem a oportunidade de visitar várias galerias diferentes em um só lugar, e, além disso, apreciar as esculturas que embelezam os corredores do museu. Particularmente, sou apaixonada por esculturas,
mais do que por pinturas. E eu adorei todas as esculturas que vi! Elas eram muito diversificadas, consegui reconhecer esculturas de diversos momentos da história da arte. Algumas muito detalhadas, outras mais simples; algumas em tamanhos reais, outras exageradamente grandes. Mas todas elas, admiráveis.

A primeira galeria em que entrei foi a de Hilma af Klint, que, inclusive, era bem extensa. A exposição chama-se “Mundos Possíveis”. A artista viveu entre os anos de 1862 e 1944, e é atualmente considerada uma pioneira da arte abstrata, mas seu trabalho permaneceu desconhecido durante a maior parte do século XX.

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Hilma cursou a Real Academia de Artes da Suécia entre 1882 e 1887, fazendo muitas pinturas de paisagens. Depois de um tempo, se distanciou de sua formação acadêmica para pintar os mundos invisíveis, que tinham uma temática espiritual. Em 1904, recebeu uma proposta para trabalhar com pinturas sobre o plano astral. Ela aceitou, e deu início a sua série de obras intituladas Caos Primordial, que são bem interessantes. Nessas obras, ela ilustra, através das cores dos quadros, estações do ano, sentimentos e a natureza. Formas de espirais são muito recorrentes em todas as pinturas dessa série, e são ilustradas em qualquer espaço da pintura. Existem várias hipóteses sobre a presença dos espirais nessas obras, como as de que eles podem representar ondas de rádio, crucifixos ou códigos de DNA. As obras que datam 1907 da série “As dez maiores” estão entre as que mais me chamaram atenção em toda a galeria.

Por fim, as obras de Hilma af Klint por que eu mais me interessei foram as três telas finais da série “As pinturas para o templo”, chamadas “Os Retábulos”. A série abrange 193 pinturas, sendo dividida por coleções, como o Caos Primordial, já citado. Essas pinturas estavam expostas em um ambiente separado das demais. Era uma sala com paredes escuras, e holofotes acima dos três quadros, destacando-os. Em frente a eles, um banco. As pessoas entravam, sentavam e ficavam em silêncio por minutos admirando as obras. Pinturas que remetem aos templos religiosos, estavam, praticamente, dentro de um! Transmitia-se a sensação de que todos que estavam ali, e isso me inclui, cultuavam aqueles quadros. Foi arrebatadora a atmosfera criada pelo
museu para expor as obras! Elas têm um conjunto de cores, o círculo e o triângulo equilátero diagramados de uma maneira ímpar em cada uma delas. É incrível como esses aspectos do quadro guiam o seu olhar debaixo para cima, de cima para baixo, ou começando pelo centro da pintura. É fantástico!

A segunda galeria em que entrei  traz obras do período da Vanguarda Brasileira dos anos de 1960, e é uma coleção de Roger Wright. Foi, sem hesitação, a galeria que nós mais gostamos de visitar! A maioria das obras eram mais interativas, algumas “3D”, utilizando materiais alternativos, saindo dos limites da pintura convencional. Penso que essa seja a maior diferença entre as galerias da Hilma af Klint e da Vanguarda Brasileira: as obras da Hilma af Klint são abstratas, algumas de difícil interpretação, não se sabe exatamente a mensagem que a artista queria transmitir através das obras. Já nesta coleção do Roger Wright, as obras têm temáticas relacionadas ao período em que foram feitas, e, desta forma, tem-se uma noção maior da ideia que é transmitida pelo quadro. Gostei muito de todas as obras desta coleção, com destaque para algumas, como uma obra feita inteira com canudinhos. Chama-se Cinzas, porque nela há canudinhos cinzas e brancos. De perto, percebe-se que são canudos, mas de longe dá uma ideia de ser uma massa, ou uma espuma, é muito diferente! Outra obra denominada Reina Tranquilidade me chamou atenção por serem várias faces e em cada boca estava escrito SIM, representando uma manipulação em massa.

As últimas duas galerias as quais eu entrei, eram sobre a Tradição Colonial e a outra sobre o Barroco brasileiro. Na primeira, muitas pinturas belíssimas, ricas em detalhes, que representam os escravos, e os colonos aqui no Brasil. Algumas obras, eram de artistas internacionais que nunca haviam visitado a América, mas representavam o Brasil em suas pinturas. Logo, essas ilustrações demonstram uma boa relação entre os colonizadores e os indígenas, o que se sabe que não ocorria; os indígenas são representados com características e traços de um europeu. Havia também algumas obras que representavam a paisagem sob olhar do colonizador, ou seja, a natureza era ilustrada perfeitamente, principalmente o Rio de Janeiro, já que essas obras eram mandadas para a Europa, a fim de transmitir a mensagem de que a colônia era um lugar lindo agradável.

Ao sair desta última galeria, quase na saída do museu, deparo-me com uma obra enorme. É a “Tunga: Tríade Trindade”, que é constituída de metais, imãs, tem cinco metros de altura e quatro toneladas de peso. A obra representa a trindade divina, que consiste na ideia de um único deus que é o pai, o filho e o espírito santo, e por isso a utilização de imãs, já que se forma uma unidade. E pode também fazer uma alusão ao corpo humano, em que todas as partes são conectadas e fazem com que o organismo funcione.

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MASP e a representatividade feminina na arte

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Aluna: Laura Cortes Modes – 2C 

No dia dez de março, fui ao MASP (Museu de arte de São Paulo) junto com um grupo de amigos, incluindo duas meninas polonesas que estavam fazendo intercâmbio no Brasil.  Por conta da presença delas, aprendi a visitar lugares, como o próprio museu, com um olhar turístico. E durante as duas semanas que passaram por aqui, percebi a quantidade de cultura e beleza que São Paulo apresenta, percepção que a rotina não nos deixa ter.

As polonesas estavam muito ansiosas para conhecer o MASP, pois lá fora ele é reconhecido como um museu cheio de obras de renomeados artistas e apresenta grande diversidade artística. Começamos pelo segundo andar, onde há exposições fixas do acervo. Lá, encontram-se obras maravilhosas e muito famosas, por exemplo pinturas de Portinari e Vincent Van Gogh. As polonesas ficaram maravilhadas com a exposição e com a forma original com que as obras são expostas: por conta da brilhante ideia da arquiteta Lina Bo Bardi de  selar as obras em cavaletes de vidro, e não em paredes opacas, as pinturas parecem estar flutuando, como se estivessem suspensas, criando uma sensação de leveza.

Estava achando todas as obras muito lindas e maravilhada com o museu, mas no final do segundo andar me deparei com uma informação:

Das 122 obras que existem no MASP, apenas 4 são de artistas femininas. E essa estatística não muda se observarmos outros lugares do mundo: por exemplo, o MET, museu reconhecido de Nova York, apresenta apenas 5% de artistas femininas e 85% de nus femininos. Ou seja, mulheres não têm espaço no mundo da arte pois não são reconhecidas como artistas e, sim, como musas.

Por conta dessa mentalidade machista, que nos rodeia desde muito tempo atrás,  artistas mulheres são desvalorizadas e por mais talento que elas tenham, nunca serão mais reconhecidas que um homem. Infelizmente, essa realidade não acontece só dentro do mundo da arte, mas em toda sociedade. A mulher nunca teve voz e poder de mudança, contudo, cada vez mais pessoas se juntam para lutar por igualdade de gênero.

O cartaz exposto no MASP foi criado por um grupo de mulheres que, atualmente, vêm lutando por essa igualdade dentro do mundo da arte. Elas são chamadas de Guerrilla Girls, e usam máscaras de gorilas para não serem identificadas, assim podendo ter maior liberdade de expressão. Elas já passaram por vários países, e em 2017, foi a vez do Brasil.

Nosso país apresenta péssimas condições de igualdade de gênero e infelizmente, no ano passado, caiu 11 posições no ranking mundial (Relatório de Desigualdade Global de Gênero 2017), ficando em 90º lugar. A baixa participação feminina política foi a principal causa da queda no ranking. Com isso, podemos perceber que mulheres brasileiras estão longe de conseguir alcançar a igualdade.

Esses fatos são comprovados dia após dia dentro da nossa sociedade. Por exemplo, o triste acontecimento no Rio de Janeiro, que envolveu Marielle Franco, mulher que lutava por igualdade, não só de gênero, mas em prol de todas as minorias, foi morta. Mas a morte não aconteceu por causa de qualquer assalto do Rio, foi um crime político, o Estado a matou, a sociedade a matou. E só aconteceu pois ela possuía um cargo político, ou seja, ela tinha poder de mudança. E no mundo em que vivemos, mulheres não podem ter esse poder. Por trás da morte de Marielle, milhares de mulheres brasileiras morrem todos os dias, por serem mulheres e por quererem direitos.

A arte reflete tudo o que acontece na sociedade, então, conseguimos entender o porquê de não existir representatividade feminina dentro do mundo artístico. Mas, tendo como exemplo as Guerrilla Girls, Marielle e todas as brasileiras que lutam por igualdade de gênero, temos que continuar apoiando e lutando pelo espaço das mulheres na nossa sociedade.

Se não fosse o cartaz, nunca teria refletido que naquela sala com várias obras apenas quatro eram de artistas mulheres. E a partir de agora, irei reparar em todos os museus sobre a representatividade feminina na arte.

 

 

“Café Society”, de Woody Allen

Aluna: Cíntia dos Santos C. da Silva – 1A 

O filme “Café Society” se passa na década de 1930, e retrata a rotina de um jovem judeu chamado Bobby, que decide sair de Nova York, onde morava com sua família, e ir para Hollywood tentar uma carreira na área cinematográfica. Seu tio, Phillip, é um grande produtor na cidade, então Bobby tenta convencê-lo a ajudá-lo a conseguir algum trabalho. Phill acaba por contratar o sobrinho para alguns trabalhos pequenos dentro de seu escritório, e pede para que sua secretária, Vonnie, mostre a cidade para ele.

Bobby acaba se apaixonando por Vonnie, sem saber que a garota era amante do tio. Depois que este termina seu caso com a secretária, Bobby tenta fazer com que ela o esqueça.

O filme vai partir deste romance e das aspirações de Bobby para seguir com a narrativa, que mostra a alta sociedade dos anos 30 de uma forma que permite ao telespectador sentir-se inserido naquele mundo e na própria história.

Embora o enredo seja envolvente, como fã de romances mais intensos, “Café Society” acabou me decepcionando. A história entre Bobby e Vonnie é bem clichê, entretanto isto não é exatamente o problema, mas sim o jeito como a narrativa dos dois se desenvolve e termina. O filme está na categoria “Romance”, então acabei criando expectativas para um romance de tirar o fôlego, o que este não é!

Na minha opinião, se a história tivesse tomado um rumo diferente e tivesse privilegiado um pouco mais a história romântica, o filme seria mais emocionante. Conforme ele foi se desenvolvendo, eu realmente fiquei curiosa para saber como terminaria a narrativa, porém, não senti a emoção que os romances geralmente me causam. Portanto, acho que não classificaria “Café Society” como um verdadeiro romance, mas sim um drama leve. Por já conhecer histórias com a trama parecida, acho que a forma a qual o filme se desenrolou foi o que o tornou previsível e meio frustrante para mim.

Mesmo não tendo gostado do romance do filme, achei que ele traz uma bagagem cultural ótima, por conta da forma com que a elite da época foi representada. A trilha sonora e a palheta de cores escolhida também refletem uma elegância característica das narrativas da década de 30, o que fez com que eu me sentisse totalmente inserida na história. Também achei que alguns personagens poderiam ter sido mais bem explorados, como, por exemplo, a prostituta que aparece logo no início do filme, quando Bobby chega em Los Angeles. Inclusive, do meu ponto de vista, a história teria se tornado bem mais interessante se o romance fosse entre ele e Shirley.

Apesar de tudo, gostei do filme e pesquisando um pouco sobre as obras de Woody Allen, encontrei outros filmes que parecem ter o romance explorado de maneira um pouco mais intensa, o que me deixou curiosa para assisti-los.

Woody Allen nasceu em 1935 e iniciou sua carreira como comediante e fazendo stand-ups, e depois acabou indo para a área cinematográfica. Muitos de seus filmes têm como protagonista um judeu nova-iorquino, como é o caso de “Café Society”.

 

Edgar Allan Poe

 

Aluna: Isabella Martins Gomes de Souza – 2D

Meu interesse por Edgar Allan Poe começou aos 13 anos de idade quando li uma história em quadrinhos de um de seus contos, “Assassinato na Rua Morgue”. Além dos desenhos, que prendem a atenção de qualquer criança, a atmosfera pesada e impactante ao redor do mistério e do crime investigado pelo detetive Dupin fizeram com que eu não parasse naquela história e fosse atrás de outras obras permeadas de terror e suspense desse marco da literatura de horror.

Antes de falar sobre algumas de suas obras, é importante destacar que os temas sombrios ecoaram também fora da literatura inglesa e alemã. Alguns escritores, dentre eles Charles Baudeleire, foram responsáveis por difundi-los não só círculos literários franceses, como também por toda a Europa.

O livro que escolhi para esta V.A Cultural foi “Edgar Allan Poe: coleção Medo Clássico”, o qual traz quinze contos mais seu poema mais famoso, “O Corvo”, que também aqui será tratado. Essa é uma edição de capa dura da Darkside, primeira editora brasileira totalmente dedicada ao terror e à fantasia, que contém, além dos contos e poema, um sumário que, permita-me dizer, me agrada muito, pois traz uma pequena introdução escrita por Charles Baudelaire (já citado anteriormente) e publicada em 1852 na Revue de Paris, chamada “O Homem e a Obra”.

Comecemos, então, por um de meus contos favoritos e que acredito encaixar-se em algumas características do Romantismo: “Eleonora”. Considerado uma poesia narrativa, “Eleonora” é narrado em primeira pessoa e nos conta a história desse narrador que se apaixona por sua prima (cujo nome deu origem ao do conto) e que, ao perceber que sua amada adoece, lhe faz a promessa de nunca mais amar ninguém. Mas, como estamos falando de Poe, é óbvio que existirá um conflito interno que atordoará o personagem: anos após a morte de sua doce Eleonora, ele decide ir morar na cidade grande, onde experimenta a vida boêmia e se apaixona por uma jovem. O que esperamos ansiosamente para saber é se ele amará outra pessoa e quebrará a promessa feita à Eleonora.

Contar logo o final do drama desse conto seria chato demais, então decido que agora é o momento de parar e falar sobre as características românticas presentes até o momento, trazendo pequenos trechos do próprio conto para melhor compreensão. Logo no início podemos perceber que o narrador é um romântico, um desajustado social que vive isolado (“Digamos, então, que sou louco”/ “Nenhum passo errante jamais penetrou nesse vale…”) e faz uma rápida introdução aos fatos que vai apresentar, caracterizando a história como composta por diferentes condições mentais (“…existem duas condições distintas de minha existência mental- a do raciocínio lúcido,incontestável, relativa à lembrança dos acontecimentos que formam a primeira época de minha vida, e a da sombra e da dúvida, correspondente ao meu presente…”).

Ele começa, então, a descrição da primeira parte de sua vida, aquela na qual ele estava lúcido, e descreve como começa o amor entre os dois. Nesta parte em questão, a natureza é participativa (“… como uma floresta de sonhos, brotavam árvores fantásticas cujos troncos… curvavam-se graciosos…/ “O gramado se tornou mais verde…”) e está sempre sendo associada à beleza de Eleonora (“…um rio…cujo brilho só não era maior do que o dos olhos de Eleonora…”).

Outra característica, presente principalmente na Geração Ultrarromântica, é o amor e morte como ideias centrais, inclusive sendo citado o deus Eros para falar sobre o sentimento entre os amantes (“… o deus Eros… acendera em nosso âmago as almas ardentes…”) e Tânatos, cujo nome não foi citado, porém, é a própria personificação da morte, assim como no trecho “… o dedo da Morte tocando-lhe o peito…”. Puxando o gancho para concluir o conto, acredito ter deixado uma grande pista para o desdobramento da história: a morte de Eleonora.

A partir desse acontecimento, a memória do narrador começa a ficar embaçada (“Até aqui, meu relato foi fidedigno. Porém, à medida que… prossigo rumo à segunda era de minha vida, sinto que uma sombra me obscurece a mente…”), mas a natureza continua a ser participativa (“As flores estreladas murcharam… e nunca mais floresceram. O verde do gramado desbotou…”).  O desajustado social decide, então, se mudar para a cidade na tentativa de superar a dor da perda e é neste ponto que fica evidente o sentimento do romântico em relação à sociedade, a qual ele não se encaixa, ao dizer “Vi-me em uma cidade estranha, onde todas as coisas serviam para apagar da memória os doces sonhos… Uma corte majestosa, …o som estridente das armas…inebriam meu cérebro.”).

É justamente na cidade que ele se apaixona por Ermengarde, uma jovem que é descrita de forma idealizada e, ao mesmo tempo, sensual, com desejos carnais, novamente nos trazendo uma característica romântica, percebida em “… adoração mais ardente e abjeta… ao fervor, ao delírio, ao êxtase…”/ “Ah, Ermengarde, anjo divinal!”).

Agora, o tão esperado final: será que Eleonora perdoará o amado por quebrar a promessa ou ela voltará para se vingar? Apesar de acreditar que a segunda opção traria um ar mais macabro, Poe optou pela primeira. Algum tempo depois, o narrador e Ermengarde  se casam e, no silêncio de uma noite, ele diz que escuta a voz da doce Eleonora, dizendo-lhe “…o Espírito do Amor reinou e…está absolvido…das promessas feitas à Eleonora.”.

Para finalizar, não poderia deixar de lado o grande poema “The Raven” ( “O Corvo”, traduzido para o português), publicado em 1845 na revista “Evening Mirror”, cerca de quatro anos antes de sua morte. Essa edição a qual me refiro reuniu a tradução de dois gênios da língua portuguesa: Machado de Assis e Fernando Pessoa, as quais, apesar de gostar muito, terei que deixar de lado e focar no poema original.

Minha escolha de foco principal se deu pela introdução (“A Filosofia da Composição”) escrita pelo próprio Edgar Allan Poe, na qual ele fala um pouco sobre o poema, sua forma, seu tamanho, o tema central etc. Além de afirmar que é importante que o poema não seja muito longo, pois ninguém se concentra verdadeiramente nestes, ele fala sobre o significado do poema.

Para contextualiar, “O Corvo” se passa numa noite, quando o eu lírico, um homem em luto pela morte da amada, está, muito cansado, em seu quarto e, de repente, um corvo entra em seus aposentos e sempre repete frases com finais “nevermore”.

Temos no poema um corvo, pássaro de mau agouro, repetindo monotonamente a palavra “nevermore”, sempre em tom melancólico. Então, Poe diz que se perguntou qual era o tema mais melancólico de todos e sua resposta foi:  a morte aliada à beleza (“Quando aliada à beleza, a morte de uma bela mulher é, indubitavelmente, o tema mais poético do mundo e, da mesma feita, não resta dúvida de que os lábios mais apropriados para avocar este tema sejam o do enamorado de luto por um amor.”). Novamente, as ideias centrais de amor e morte da segunda geração romântica permeiam os escritos de Poe.

Para finalizar, gostaria de compartilhar minha sincera opinião sobre este livro. Muitos dizem que Poe copiou isso ou aquilo de tal autor ou que ele foi “autêntico em vida e caricatura na morte”, mas nada disso me importa. Em minha opinião, esse livro foi um meio de entrar no mundo de Edgar Allan Poe, de ver o que ele via, sentir tudo aquilo que ele descrevia e, principalmente, foi como apertar sua mão e dizer “ É um prazer finalmente conhecê-lo”.

“Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjo chamam Lenora!”

 

Reggae, uma história de luta

 

Aluno: Murilo La Fonte Albuquerque – 2C

Para este bimestre, fiquei por muito tempo indeciso sobre o que fazer para a VA Cultural.  Foi quando pensei em um estilo de música tão comum e ao mesmo tempo tão distante de nós: o reggae. Sempre que falamos desse estilo de música, só um artista vem-nos à cabeça: Bob Marley. Em um contexto geral, conhecemos bem pouco desse estilo. Por muito, ele sempre esteve presente em minha vida, já que minha prima sempre foi ouvinte deste estilo, porém nunca estive presente para apreciá-lo plenamente. 

 O reggae, basicamente, foi descendente de estilos denominados ska e rocksteady, que se originaram também na Jamaica anteriormente ao mesmo. Eles deram a base para, nos anos de 1960, quando várias transformações sociais começaram a ocorrer, surgir o estilo de Marley. A banda The Wailers, formada pelos principais representantes do reggae (Peter Tosh, Bunny Wailer e, obviamente, Bob Marley), popularizou o estilo dos rastafaris no mundo todo. Vários problemas internos fizeram com que seus principais membros a deixassem. Peter se separou dos The Wailers após a imposição da gravadora Island, gravadora da banda na época, do nome da banda se tornar Bob Marley & The Wailers. Se não bastasse, Bunny Wailer também se afastou da banda para praticar a fé dos rastafari. Contudo, a banda continuou sua jornada, com Bob Marley sendo o seu líder.

Assim como Bunny, vários outros cantores do estilo seguem a religião não oficial dos rastafari. Estes acreditam que os afrodescentes devem retornar as suas raízes, que para eles é sua terra prometida, isto é, a África. Acreditam nisso com base no Velho Testamento da Bíblia, dizendo que quando o primeiro imperador negro assumisse o poder na África, este seria a reencarnação de Messias na terra. Apesar disso, o rastafarianismo é mais considerado um estilo de vida por não possuir uma igreja ou forma de culto. O desejo de se separar dos costumes impostos pelos britânicos até 1962, quando conquistaram sua independência, influenciou em grande parte o desejo de expressar a voz que os artistas possuíam.

Bob Marley expressou-se bem nesse tempo. Enquanto vários protestos aconteciam em seu país no fim dos anos 60, ele pregava algo que era necessário neste momento: paz. No seu álbum Kaya, de onde saiu a consagrada música “Is This Love”, fala muito sobre paz, amor e descreve cenários naturais acompanhados por uma batida suave e calmante. Ele se tornou tão famoso enquanto artista que é impossível passar a vida inteira sem ouvir seu nome uma vez. Além de pregar a paz na Jamaica, apoiou o governo jamaicano quando este decidiu exercer embargos sobre a África do Sul para que esta abandonasse regime de Apartheid contra a população negra.

Peter Tosh, comparado à Bob, concentrava-se muito mais na luta contra injustiças do que na paz propriamente dita. No seu álbum Equal Rights, além de atacar seu antigo companheiro de banda dizendo “Eu não preciso de paz, eu preciso de direitos iguais” na música com mesmo nome, fica explícita a música mais crítica e combativa de Peter. As canções deste álbum retratam uma visão mais drástica sobre as diferenças entre as pessoas. Constantemente o músico se refere negativamente ao pensamento dos americanos sobre os negros e fala para estes “Se levantem, lutem por seus direitos”. Além disso, demonstra seu apoio na luta contra o Apartheid numa música com mesmo título. Além disso, constantemente faz referência à cultura rastafari, sendo também igualmente importante como os The Wailers na propagação dessa cultura. Realmente, um artista que deve ser reconhecido por seu talento e histórico de lutas por direitos iguais.

 Marcia Griffiths, apesar de não retratar com tanta profundidade os problemas da sociedade jamaicana como os outros dois, tem sua importância por ser a mais famosa cantora do estilo, sendo que recebeu o título de “Rainha do Reggae”. Também adepta do rastafarianismo, fala do desejo constante de viver livremente, naturalmente, assim como é dito no álbum “Naturally”. Suas músicas são bem animadas para o estilo, fazendo uso constante do piano e o uso progressivo das guitarras. A cantora sonha bastante com a África, como afirma na canção Dreamland, quando diz “Tem uma terra de que ouvi falar, muito longe através do mar(…) Te ter na minha sonhada terra, seria como o céu pra mim(…)”, além de sempre fazer canções sobre alguns sentimentos, como amor e saudade. Consagrou-se por ser influente no cenário musical para as mulheres, algo que não deve ser negado, além de possuir uma bela voz que é constantemente comparada à das grandes cantoras americanas.

O reggae não varia muito no estilo, sendo basicamente uma batida suave e lenta com bastante uso da guitarra e do baixo. Apesar disso, a variedade nos temos abordados pelos artistas é clara, mesmo que a maioria apenas queira demonstrar o sentimento de insatisfação daqueles que mais necessitam ser ouvidos. Por consequência, graças ao reggae, a luta pelo direito dos negros em vários países se tornou mais intensa, até em países como Brasil e África do Sul. A importância desse estilo como motor para as mudanças não deve ser ignorado, e seu valor cultural deve ser igualmente reconhecido pelas grandes massas.

“Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley

Aluna: Gabriella Andreucci – 1C 

Minha história com esse livro começou no final de 2016. Por indicação de uma booktuber (youtuber cujo canal é voltado para livros), decidi comprá-lo e sair da minha zona de conforto de livros “fáceis”; mas desde o dia em que o comprei nunca havia separado tempo para lê-lo. Foi quando, como um pedido enviado do além para que eu finalmente o lesse, a proposta desta VA Cultural veio e eu fui praticamente “obrigada” a realizar tal feito, uma vez que meus pais não tinham tempo de me levar para fazer algo que se encaixasse nas exigências da atividade.

Por incrível que pareça terminei de lê-lo em cinco dias, o que, na minha opinião, é um tempo ótimo levando em consideração que se trata de uma distopia clássica, ou seja; além de compreender um mundo totalmente novo aos meus olhos, tive que me acostumar com a linguagem mais rebuscada e “antiga” (de difícil entendimento em algumas partes, vale ressaltar). Eu simplesmente me sentei e comecei a ler, nada muito interessante já que não houve participação de outras pessoas, porém posso descrever, entretanto, como me senti durante a leitura, a qual posso afirmar que foi um tanto quanto estranha e maçante a princípio; conflitante e tensa a partir do momento em que realmente me envolvi com a história. Como dito, no início não gostei tanto assim da história, já que tive que realmente me esforçar para entender toda a lógica desse “novo mundo”, mas conforme fui me familiarizando com as referências e termos usados, me senti cada vez mais presa e aflita com todos os acontecimentos. Por possuir elementos tão facilmente relacionáveis com a sociedade contemporânea, me sentia de certa forma desconfortável ao ter tantas verdades jogadas sem pudor algum na minha cara e isso fez com que, durante dias após o termino da leitura, eu refletisse e pensasse sobre o enredo e como apesar de parecer uma simples distopia, teve um impacto tão grande no meu dia a dia.  

Admirável mundo novo, como citado anteriormente, é uma distopia clássica. Escrito em 1931 por Aldous Huxley, um autor inglês que compôs além de romances, diversos ensaios; foi também editor da revista Oxford Poetry. Ganhou diversos prêmios e teve algumas de suas obras adaptadas para a televisão, sendo duas delas adaptações de Admirável mundo novo.

Apesar de ter sido escrito há mais de 80 anos, se encaixa e, de certa forma, explica a sociedade de hoje em dia perfeitamente – esse foi definitivamente o aspecto que fez com que eu gostasse tanto do livro. Na sociedade descrita, a manipulação é um fenômeno onipresente, a ponto de os indivíduos serem “criados/fabricados” em laboratórios. Eles eram divididos em castas, e dentro delas, teriam habilidades específicas, sem possibilidade nenhuma de mudanças. As crianças, por exemplo, assim como na sociedade atual (em sua maioria), são ensinadas e induzidas a gostar e não gostar de determinadas coisas, a ter mais habilidade em certas áreas do que outras, o que claramente se relaciona com a forte divisão de gêneros atualmente. Além disso, há um grande incentivo ao consumismo, até porque essa sociedade tem que se manter economicamente: ao invés de tentar consertar algo quebrado, simplesmente compram outro novo. Novamente, esse elemento reflete-se na nossa sociedade em que o consumismo é cada vez maior entre as pessoas e o fato de consumir mais do que o necessário se tornar algo normal, uma rotina. Para ser bem sincera, poderia escrever páginas e páginas de como esse livro se relaciona com a nossa sociedade, mas espero ter dito o bastante para que você se interessasse.

O fato é que já tinha perdido as esperanças de que algum dia realmente o leria, mas graças à atividade tive a oportunidade de me deparar com uma história carregada de críticas sociais e que se encaixa perfeitamente nos dias de hoje; portanto recomendo fortemente a leitura e reflexão de um mundo que apesar de ser novo é tão podre e manipulador como o velho.

 

“Loving Vincent” e “Frida”

Aluna: Gabriella Araújo Tomé – 2A

Eu, com meus dezesseis anos, sempre fui admiradora de arte, em qualquer que seja sua forma, mas tenho maior apego pela arquitetura e pelas plásticas. Desde pequena gastava uma boa fração do meu tempo admirando os quadros da casa da minha avó, não porque os achava bonitos, na realidade aquelas frutinhas e as paisagens, sem querer desmerecer as obras,  eram bem monótonas e sem expressão. Não sou grande entendedora de arte e sei que não podemos dar uma definição exata para essa palavra, mas para mim, arte, é uma forma de expressão, é a tentativa de apresentar para o mundo o que se passa na mente, colocar sentimentos em palavras, telas, papeis, muros, palcos, fotos… e vários outros que poderia gastar um bocado de tempo listando, mas esse não é o objetivo deste texto!

Frida Khalo e Vincent Van Gogh são pessoas que admiro muito, tinham mentalidades bem diferenciadas do senso comum de sua época, eles questionavam imposições sociais pois simplesmente não compreendiam o porquê delas, mas não se moldavam aos padrões. Incompreendidos, usavam das pinturas para solidificar seus sentimentos e expressar aquilo que desejavam dizer ao mundo. Ambos são pintores modernistas, Van Gogh é o grande percursor desse movimento, já Frida está ao final deste período.

Loving Vincent

É uma animação do ano de 2017 muito diferente das de costume, já que o filme é “pintado a  mão” e conta com mais de 64 mil telas diferentes em sua composição, no traçado característico e inconfundível do pintor. A história do longa se passa alguns anos após a morte de Van Gogh, onde Armand Roulin (tema de uma de suas famosas pinturas, aliás) faz um favor ao seu pai (também uma famosa pintura) e tenta entregar uma carta de Vincent ao seu irmão Theo, porém, nesse meio, o rapaz se encontra com pessoas (também pinturas importantes) e descobre que Theo está morto. A partir deste momento o foco passa a ser saber o que levou aquele que cortara a própria orelha a se suicidar, levantando-se até mesmo a hipótese de homicídio. O conflito não é solucionado no fim do filme, que termina com frases da verdadeira última carta que esse pintor mandou ao irmão, sobre como se sentia incompreendido e deslocado, mas que gostaria de mostrar ao mundo, por meio do seu trabalho, aquilo que talvez ninguém guardava em seu coração.

Assisti a esse filme em dezembro do ano passado no cinema “Reserva Cultural”, no prédio da Faculdade Cásper Líbero, mas quando vi que a Netflix o liberou decidi revê-lo, e me peguei pausando em várias partes apenas para observar as pinturas. O filme, que foi indicado ao Oscar 2018, é sem dúvida uma obra de arte, que me fez conhecer muito mais do artista e me apegar a detalhes de sua personalidade que geram uma empatia tremenda por todo o sofrimento e sentimentos exacerbados que transbordaram esse grande artista. As telas acabam por contar a história junto com o roteiro. Seguramente posso afirmar que se tornou meu filme predileto.

Frida

O filme é um drama biográfico, com o roteiro baseado no livro Hayden Herrera. O vídeo conta sua vida da adolescência até o ano de sua morte, percorrendo cenas importantíssimas, tal qual o momento do trágico acidente com o ônibus, seu relacionamento com o pintor mexicano Diego Rivera, suas viagens pelo mundo, momentos boêmios e opiniões políticas, até a hospedagem de Trotsky em sua casa. É bastante artístico o filme, mas falado em inglês por motivo desconhecido, já que a pintora era mexicana e apresenta forte relação com essa nacionalidade. O filme é muito recomendado para os amantes da arte e aqueles que curtem boas histórias. Além de todas essas características técnicas, apresenta e detalha grande e maravilhosamente bem quem foi a incrível Frida Kahlo.

Quando assisti a esse filme estava em casa, não pensando em redigir um trabalho sobre ele, estava apenas na minha lista do Netflix. Não conhecia muito a história dessa mulher, meramente sabia sobre seu caso com um dos percursores da revolução russa, o filme é bem expositivo sobre os fatos e, assim como em Loving Vincent, não falha em expor os sofrimentos e descontentamentos da pintora com o mundo externo permeados em sua vida extremamente dura e complicada. A empatia também é trabalhada, tanto que foram numerosas cenas em que chorei.

Algumas reflexões para concluir

Julguei que seria interessante analisar os dois filmes em conjunto, não apenas por pertencerem ao mesmo movimento artístico, mas por serem duas pessoas geniais, porém incompreendidas.

Van Gogh, em vida, nunca vendeu sequer uma tela, faleceu em um quarto de hotel extremamente deprimido e infeliz. Em vida chegou a fazer coisas foras do normal, características de descompassos mentais, como comer tinta amarela por pensar que lhe faria feliz e cortar a própria orelha para presentear a uma prostituta. Frida Kahlo teve perdas duras por toda a vida, sofreu psicologicamente e fisicamente, passando por frustrações que iam de perder um namorado de adolescência, perder um filho e não poder ter outro até perder o controle de seus movimentos. Ela é hoje considerada um ícone feminista, tinha uma beleza fora do padrão e, considerando ser mulher e pintora mexicana, é incrível e admirável que tenha conseguido a posição no cenário internacional que chegou.

Trata-se de seres exuberantemente oprimidos e coagidos, apenas por pensar diferente. Ainda hoje é visível que nossa sociedade e o meio social em que estamos inseridos causa esse efeito nas pessoas, pois existe um senso comum, um padrão, que é complicado de se questionar, porque quando o fazemos somos julgados e até afastados. Talvez, a beleza de suas obras, as peculiares características sejam provenientes de tanto sofrimento. Se Frida e Vincent não tivessem passado por tudo que sentiram, hoje, talvez não houvesse pessoas capazes de encontrar nessas obras conhecimento intrapessoal. A tinta amarela “da felicidade” ingeria por Van Gogh é a mesma visualizada pelas pessoas nos seus quadros, nos de Frida, e de outros artistas na atualidade.

Álbum “Low in high school”, de Morrissey

Aluna: Beatriz Nakazato Mendonça – 1E

Ouvi o novo álbum “Low in high school” lançado em novembro de 2017 pelo cantor Morrissey, que alcançou o ápice de sua carreira nos anos 80 e 90. Antes, já conhecia um pouco de seu trabalho, uma vez que até 1987 era o vocalista da banda The Smiths, de que eu particularmente gosto muito. Depois dessa passagem de grande sucesso pela banda – que nunca mais voltou a se reunir – Morrissey começou uma carreira solo tão brilhante quanto e emplacou diversos sucessos como “Suedehead” e “Everyday is like Sunday”. Entretanto o ex-vocalista do The Smiths não é apenas conhecido por suas boas músicas: desde sempre ele toma posições polêmicas criticando a família real britânica ou divulgando seu ativismo a favor dos direitos dos animais, por exemplo, este último fica muito presente no disco chamado “Meat is murder” lançado ainda em 1985. Deste modo, o mais recente álbum do Moz não fica para trás quando o assunto é polêmica. Além de várias faixas de cunho político e anti-guerra, que normalmente não eram entregues pelo artista, as diferentes melodias o tiram de sua zona de conforto, já que são bastante exóticas comparadas às suas músicas não tão recentes.

A faixa “Jacky’s Only Happy When She’s Up On Stage”, por exemplo, pode ser interpretada como uma referência ao Brexit, assunto que estava sendo muito comentado em 2017. Outro exemplo é “I Bury The Living”, em que Morrissey critica a guerra e se utiliza no fim da música de um coro provocativo e impactante para retratar as tristezas provocadas a pessoas inocentes durante conflitos desta natureza; críticas aparecem de forma parecida ao longo e todo o álbum. Sendo assim, em minha opinião, a nova aposta de Morrissey obteve um ótimo resultado, já que as ótimas letras, típicas do artista, o conteúdo e os arranjos e melodias inovam, deixando um pouco de lado os temas mais individuais (que já foram muito bem retratados por Moz). Tendo isso em vista, definitivamente “Low in high school” é um álbum muito bom, porém não é fácil de ser digerido, é preciso tempo para ouvir as músicas e interpretar aquilo que deve ser passado ao ouvinte.

Itaú Cultural – “Coleção Brasiliana Itaú”

Aluna: Paula Alves Alcalá – 1C

No dia 10 de fevereiro, eu e a minha mãe fomos ao Itaú Cultural, na Avenida Paulista. Fomos sem saber o que estava exposto: queríamos apenas nos divertir juntas, andando pela Paulista, e aproveitar pra dar uma espiada no que havia, já que é sempre bom estar atualizado sobre esses assuntos. Chegamos lá e, sinceramente, eu não estava muito animada: as exposições de que eu realmente gostei na minha vida foram poucas e, ir a um museu, para mim, sempre foi mais um tipo de “obrigação para a formação do meu conhecimento cultural”, essas coisas. Entramos, e nos informamos sobre as exposições daquele dia.

A primeira exposição (que a gente passou rapidinho só para dar uma olhada) era sobre os indígenas brasileiros atuais. A segunda era sobre a história do Brasil, com o nome de “Coleção Brasiliana Itaú”, no espaço Olavo Setúbal (homem com uma destacada atuação como banqueiro, empreendedor e político). Depois de dar a nossa espiada na primeira, subimos alguns andares para a segunda exposição. Subimos de elevador e, quando a porta do elevador abriu, eu fiquei encantada com o que eu vi: uma sala com uma escada em formato de espiral e, nas paredes, dezenas de quadros pintados a mão sobre a flora brasileira. É de tirar o fôlego, sem sombra de dúvidas. Nesse momento, minha animação aumentou um pouco e, após tirar algumas poucas dezenas de fotos, começamos a explorar o que aquela coleção tinha para nos oferecer.

Em geral, a exposição conta sobre os últimos cinco séculos do Brasil, que correspondem desde a descoberta do Brasil em 1500 até os dias de hoje. Quando eu li esse breve resumo da exposição, minha animação já tinha voltado ao seu estado inicial, porque museu, somado à história do Brasil, era certeza de momentos incrivelmente chatos e monótonos. Mas, é claro, dei uma chance a exposição. No começo eu pensei que eu ia morrer, porque havia textos falando sobre os primeiros indígenas canibais do Brasil e a imagem que os portugueses levaram dos indígenas para Portugal (um assunto meio chato), até que eu avistei uma paixão minha: mapas. O modo como podemos representar algo tão grande em míseras folhas, e como na verdade não conseguimos fazer uma representação que seja exatamente igual a realidade… sério, mapas são simplesmente incríveis e lindos!

E tinha muitos, muitos, MUITOS mapas: desde os primeiros mapas realizados pelos europeus até mapas mais “atuais”, mostrando toda a evolução da precisão do litoral brasileiro até chegar em uma representação parecida com que a temos hoje. E o melhor de tudo: todos esses mapas foram feitos a mão. Observando bem de pertinho, é possível observar a tinta sobre o papel e os pequenos deslizes cometidos. Simplesmente estonteante . Bem, mesmo a exposição não se tratando apenas de mapas (o que seria maravilhoso), eles foram o que me empolgaram e me impulsionaram a ler quase tudo o que tinha lá e ficar mais de uma hora apreciando obras, lendo fatos incríveis sobre o Brasil colônia e aumentando meu interesse por história do Brasil.

Não há dúvidas de que a minha visão sobre museus e a própria História mudou. Eu percebi que nem sempre nos contam tudo e que é muito importante ir a essas exposições, pois muitas podem apresentar um conteúdo extremamente interessante, mas que nós não aproveitamos, porque está tão enraizado na nossa sociedade que ir a museus é chato e desnecessário que boa parte da população não tem ideia o que esses museus podem contribuir na nossa vida. A partir de agora, vou tentar ir mais a museus e certamente vou valorizar muito mais o trabalho dos curadores, que estudam muito e realizam inúmeras pesquisas para organizar essas incríveis exposições.

A visão que eu tive após a porta do elevador se abrir. A escada dá um charme ao ambiente e esses quadros são lindíssimos. Esse ambiente todo branco e bem clean traz uma paz, né? Simplesmente encantador!
Obras realizadas por Humboldt, Clarac e Martius, na tentativa de representar a floresta virgem do Brasil.
Esses foram alguns dos mapas que mais me encantaram. Podemos observar muito bem como a visão do Brasil foi sendo aprimorada ao longo dos anos.
Ambas as gravuras mostram o Rio de Janeiro. A primeira mostra sua beleza natural, enquanto a segunda representa a vida urbana da cidade. Esta última é um exemplo de representação da escravidão no Brasil (as imagens inferiores mostram o trabalho escravo).

“O Estrangeiro”, de Albert Camus

 

Aluno: José Henrique Granjo Matos – 2C 

Albert Camusfoi um jornalista, filósofo e escritor francês, que deu início ao movimento absurdista e é considerado um dos grandes nomes do Existencialismo. Ele nasceu no ano de 1913 em Mondovi, à época, colônia francesa. Em 1914, seu pai, enquanto servia no exército francês, foi morto na batalha do Marne. Por isso, sua mãe mudou-se para a casa da avó materna de Camus, em Argel.

Ele viveria sua infância em um bairro operário, pobre e convivendo com seu irmão, vó mãe e tio. Pode-se dizer que a janela da oportunidade se abriu para Camus quando um professor, ao perceber o potencial do francês, insistiu para que a família o matriculasse no ensino secundário. Ele acabou por formar-se na Universidade da Argélia. Camus nunca foi capaz de lecionar, pois em 1930, enquanto estava na universidade, contraiu tuberculose, com seu estado de saúde se deteriorando muito rápido, essa foi a primeira vez que o autor viria a se deparar com a possibilidade da morte.

Em 1934 filiou-se ao Partido Comunista Francês e, entre 1937 e 1940, escreveu para dois jornais socialistas. Em 1940 foi rejeitado no exército devido a sua saúde ainda perturbada por casos de tuberculose, dois anos depois publicou “O Estrangeiro”. Foi em decorrência da fama deste livro que Camus viria a entrar em contato com o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre, com quem manteria uma amizade até 1952. Também, por este, foi introduzido a Resistência Francesa, o movimento antinazista, assim passou a publicar um jornal clandestino chamado Combat.

Sua interpretação do existencialismo, da qual falarei mais posteriormente, o levaria ao individualismo e a negação do socialismo, motivo pelo qual romperia sua amizade com Sartre (um defensor ferrenho do socialismo soviético). Em 1957, foi agraciado com o Premio Nobel de Literatura. Três anos depois, morreu em um acidente de carro, fato que, ironicamente, o autor escrevera anteriormente, que esta seria a forma mais absurda de morrer-se.

Como eu conheci o livro?

Vim a entrar em contato com a obra de Camus da melhor forma possível, ao total acaso. Acabei por encontrar seu livro, O Homem Revoltado, ao lado de Diários de Viagem e O Estrangeiro. Como eu achei uma edição muito bonita, resolvi ler a sinopse dos três livros, acabei interessando-me mais n’O Estrangeiro, pois este nome me soava familiar. Assim sendo, agora falarei um pouco sobre o livro e a filosofia contida no mesmo.

O Estrangeiro

Hoje, Mamãe morreu. Ou talvez foi ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não explica nada.

Assim começa o primeiro capítulo da obra e, já aqui, vê-se uma síntese perfeita do protagonista. Primeiramente, assim que recebe a notícia da morte de sua mãe, Mersault apresenta uma reação extremante pragmática, ele não se preocupa com seus sentimentos, ou com a dor da perda, mas, com a irritação provocada pela dúvida contida no telegrama. Assim, pouco a pouco compreendemos que o protagonista é um niilista.

Niilismo é uma corrente filosófica que nega qualquer sentido inerente à vida, pregando, assim, uma aceitação do vazio, posto que nada do que fazemos tem uma consequência maior e todas as relações humanas são desprovidas de significados. Essas características estão presentes em vários momentos da narrativa, desde quando o vizinho de Mersault pede ajuda para que ele consiga agredir uma amante, até o instante em que este assassina um mulçumano na praia de Algers. No entanto, essa profunda indiferença é muito bem explicitada em um diálogo entre ele e sua namorada:

Maria veio buscar-me à noite e perguntou-me se eu queria casar com ela. Respondi que tanto me fazia, mas que se ela de facto queria casar, estava bem. Quis então saber se eu gostava dela. Respondi, como aliás respondera já uma vez, que isso nada queria dizer, mas que julgava não a amar. “Nesse caso, por que casar comigo? ”, disse ela. Respondi que isso não tinha importância e que, se ela quisesse, nós podíamos casar

 

Uma vez caracterizado Mersault, o protagonista, vamos entender a sequência de eventos da narrativa.

Logo após receber o telegrama, Mersault conversa com seu chefe, o qual aparenta estar bravo por este ter de se ausentar do trabalho para ir ao enterro da mãe. Ao chegar à cidade onde se localizava o asilo (pois este homem não colocara a mãe próximo a ele), tem uma breve conversa com o diretor da casa de repouso. Ao ser questionado sobre o porquê de colocar a mãe idosa naquele local, o protagonista simplesmente responde que ela estava entediada na casa dele e os dois pouco conversavam. Mais uma vez, o pragmatismo é latente, ele toma suas decisões pensando não em seus sentimentos e muito menos no que é certo. Suas atitudes estão além do bem e do mal. Durante o enterro, ele conhece um idoso que aparentemente estava “namorando” sua mãe no asilo. Ele não entende porquê.

Nos capítulos seguintes, o protagonista recebe um pedido de ajuda de seu vizinho para armar uma cilada para sua amante. Ele o ajuda e, como resultado, após agredirem a mulher, um conhecido dela passa a perseguir os dois. Essa constante perseguição a Mersault o leva, eventualmente, a assassinar este homem (um mulçumano) com quatro tiros. Tudo isso é narrado nas primeiras 64 páginas com a mesma frieza com a qual eu aqui conto essa mesma história.

Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte onde as balas se enterravam sem se dar por isso.

A segunda parte do livro se inicia com os preparativos para o julgamento de Mersault. Não convém muito descrever os pormenores de cada capítulo, basta entender-se que pouco a pouco, os acusadores (e até mesmo o próprio juiz) não se atinham a discutir o crime cometido por Mersault, mas sim a criticar sua personalidade (inclusive o fato dele se considerar ateu) como um todo, chamando como testemunha o próprio diretor do asilo onde morrera sua mãe. Caracterizado por todos como um monstro, Mersault é condenado a morte.

Pode-se dizer que O Estrangeiro, como história, acaba neste momento. As últimas páginas do livro se preocupam apenas em expressar as ideias que passam pela cabeça de Mersault conforme ele aguarda o dia de sua execução. Aqui, finalmente Camus explicita sua filosofia na forma de um grande monólogo.

Ao se ver preso por quase um ano, Mersault finalmente começa a se preocupar com questões mais subjetivas: ele se pergunta o porquê de sua mãe ter se apaixonado tão idosa e sabendo que iria morrer. Ao fazer isso, ele chega à conclusão de que justamente porque sabia que logo iria morrer logo, ela resolveu tentar manter um relacionamento. Assim, ele conclui que a humanidade ruma para o absurdo, e o universo como um todo, mostra-se completamente indiferente a tudo isso. Pela primeira vez em todo o livro, o protagonista parece abandonar o vazio, não o negando, mas o aceitando e entendendo que, uma vez que não há um sentido inerente à vida, todos somos livres e, ironicamente, dentro da prisão Mersault finalmente tem a sensação de verdadeira liberdade:

Como se esta grande cólera me tivesse limpado do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por o sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda a era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio.