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Diretor do Liceu Jardim entrevistado pela Rádio Metropolitana sobre os resultados do PISA.
Publicado em 31/12/16 por Depto. de Marketing

No dia 06 de dezembro, o Programa Radar, da Rádio Metropolitana, falou sobre o resultado do PISA (programa internacional de avaliação de estudantes) divulgado recentemente, que confere ao Brasil as últimas posições do ranking (63ª posição em ciências, na 59ª em leitura e na 66ª em matemática).

A prova, coordenada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), foi aplicada no ano de 2015 em 70 países e economias, entre 35 membros da OCDE e 35 parceiros, incluindo o Brasil. Ela acontece a cada três anos e oferece um perfil básico de conhecimentos e habilidades dos estudantes, reúne informações sobre variáveis demográficas e sociais de cada país e oferece indicadores de monitoramento dos sistemas de ensino ao longo dos anos.

Para entender melhor o assunto, o programa ouviu o Diretor Geral do Liceu Jardim, Profº. Daniel Contro, que comentou sobre os problemas que levaram o Brasil ao péssimo lugar no ranking.

Confira a entrevista na íntegra:

Marilei Schiavi - Estamos avaliando o destaque das notícias atualmente para o ranking mundial em ciências, leitura e matemática, e o Brasil caindo nesse ranking que é medido pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, o PISA. Mais uma vez, um alerta triste sobre a nossa educação. Vamos conversar agora com Daniel Belucci Contro que é professor de história e tem mais de 25 anos de experiência na área da Educação, com passagem pelo sistema público estadual como professor e, na esfera do ensino privado, em todos os níveis, como professor, coordenador e gestor. Foi diretor de Educação na gestão do ex-prefeito Luiz Tortorello (1989-1992) e Secretário da Educação de São Caetano do Sul (2014). É membro da Academia de Letras da Grande São Paulo. Atualmente dirige o Liceu Jardim, uma referência em ensino privado e uma das escolas mais bem ranqueadas no Brasil pelo ENEM.

Professor Daniel - Infelizmente não temos nada a comemorar. Mais uma vez, repetimos o vexame de edições anteriores. Nossa situação é uma situação rasteira, com padrões baixos e lamentamos muito, porque na economia cognitiva, do conhecimento, qualquer nação que fica mal ranqueada na educação de suas crianças claramente está perdendo as suas perspectivas de futuro. Entre 70 países ficamos ali entre as posições 59º e 63º. Nossa pior nota é leitura e sabemos que a leitura compromete todo o processo de educação. O Brasil não é um país de leitores e isto é um dos fundamentos do nosso mal desempenho, assim como a matemática, onde 70% dos nossos alunos ficaram abaixo da média. E o mais importante é frisarmos que o PISA considera seis níveis a serem atingidos pelos alunos, sendo o nível 2 o mínimo para o pleno exercício da cidadania e estamos abaixo disso, ou seja, não atingimos sequer o nível mínimo para estarmos à altura de uma sociedade que exerce com plenitude sua cidadania.

Marilei Schiavi - Bom Professor, nós não sabemos fazer conta, não sabemos ler e também não sabemos entender nossas ciências. Quais as saídas para um ranking como esse, que serve para nos trazer um alerta para o país?

Professor Daniel - Primeiro a sociedade brasileira, pois não quero falar mais do Estado que já se tornou inoperante, terá que adotar a educação como uma causa nacional, como um programa de Estado e não mais de governo ou de partidos. Fala-se muito que investimos pouco em educação. Não é verdade. Proporcionalmente, investimos tanto quanto investe a Alemanha, o Canadá e outras nações desenvolvidas. O problema é a ineficiência do nosso sistema. É verdade que o nosso professor ganha mal e isso indiscutivelmente diminuiu a atração de jovens com melhor qualificação para o exercício docente, e sabemos que o professor ainda é o fator número 1 no impacto da aprendizagem. O bom professor, a beleza e a força das grandes aulas, ainda é o fator primordial. Nós precisaríamos formar melhor nossos professores. A questão tecnológica não é relevante, não é o principal. Nós precisaríamos ter metas mais ambiciosas. Veja você que países como Espanha, Portugal e o próprio Canadá estão alfabetizando suas crianças por volta dos seis anos e isso está no currículo nacional, é meta de todos os professores e em todas as escolas. Você sabe a nossa meta nacional qual é? Aqui, estamos próximos aos oito anos de idade. Já começa uma defasagem aí.

Marilei Schiavi - As nossas crianças e jovens não têm interesse de ir à escola. Em pleno século 21, com os smartphones em nossas mãos, você chega na sala de aula e o professor não sabe nem usar a tecnologia direito, pois falta o acesso a internet. Isso também está muito defasado, não está?

Professor Daniel - É uma grande verdade. Nossos investimentos em tecnologia são geralmente equivocados. Às vezes, compramos equipamentos mas não preparamos os profissionais. Às vezes, a escola compra um caminhão de equipamentos e não tem sequer uma internet mínima razoável para fazer uso. Compram-se lousas eletrônicas e o professor não sabe usar. Isso é uma grande verdade. Agora o principal ponto é a qualidade de nossas aulas. Como eu já disse, o fator de maior interesse, motivação e encantamento de nossos alunos é a qualidade do professor. Quando o professor dá uma aula brilhante, quando ele encanta, sai pelos poros, ele motiva... Agora, como é hoje a qualidade dos professores brasileiros? Cerca de 80% dos nossos professores, o MEC acabou de divulgar isso, são formados por EAD. Se você analisar a trajetória acadêmica de um professor hoje, ele vem de uma família precária, fez uma escola pública geralmente defasada, vai para uma universidade qualquer para ser um professor medíocre na sala de aula. Então o Brasil tem colocado foco em detalhes ainda errados. Por exemplo, estudos internacionais mostram que 40 alunos numa sala com um professor brilhante aprendem mais do que 20 alunos numa sala com dois professores medianos. Então nós precisaríamos investir fortemente na qualificação dos professores e outra coisa, precisaríamos que nossos professores deixassem um pouco as ideologias de lado e assumissem o seu papel. Eu, como Secretário de Educação, ficava indignado com professores que perdiam seu tempo em atividades que não eram o seu foco. Temos um dado de que o professor perde 20% de seu tempo com questões da sala de aula, que não são a aula em si, ou seja, a cada cinco aulas uma é jogada fora. Os professores não preparam bem suas aulas. Pense o caso de outros profissionais, como o médico por exemplo, será que ele vai para uma cirurgia sem estar bem preparado? Um engenheiro começa um edifício sem estar tudo preparado? A aula também precisa ser muito bem pensada, planejada em todas as suas etapas.

Marilei Schiavi - Acredito que o senhor trouxe aqui pontos importantes desde a preparação do professor, da aula, da estrutura e num ano eleitoral, muitas vezes a aposta é a educação. Porém, agora estamos diante da reforma do Ensino Médio. Como o senhor analisa essas mudanças?

Professor Daniel - Há pontos positivos e negativos. Nós precisamos mesmo diminuir o número de disciplinas. O próprio exame vestibular é bastante desafiador para as escolas, sobretudo as escolas particulares que precisam dos resultados. Mas, de fato, há mais pontos favoráveis nessa reforma do que desfavoráveis, no sentido de dar mais autonomia às escolas. Precisamos lembrar que todos os países que passaram por reformas em seus modelos educacionais tiveram como pontos fundamentais a questão da autonomia. E cobrar, com metas e métricas, os professores e diretores de escola. Em geral, os professores são muito contra serem avaliados e isso é de absoluta importância. Eu conheço vários colégios fora do Brasil onde essa prática é extremamente positiva e, por isso, acho que estamos sim na direção certa.